A Ética na Harmonização Facial

A Ética na Harmonização Facial

Ethos (em grego, seria uma associação de dois significados:  ‘hábito, costume”  e “caráter”) e pode ser definido mais modernamente como o conjunto de traços e modos de comportamento que conformam o caráter ou a identidade de uma coletividade. É em resumo, a síntese dos costumes de um povo.

Derivado deste termo vem o significado de Ética moral: ações sociais consideradas individualmente e em âmbito coletivo.

Dito isso, penso que este texto é mais um desabafo do que qualquer outra coisa:

Falta ética E moral em muitos que atuam na Harmonização Facial. 

Vou situar a todos…

Algumas semanas atrás uma colega fez um curso XXX (não vou dar os nomes, mas creiam é verdade cada palavra que colocarei a seguir) com um professor que se auto-intitulava o desenvolvedor da técnica XXX, pioneiro no Brasil e outros tantos de auto-elogios que realmente a convenceram: é o cara.

“Vou aprender com ele! Se ele faz tudo isso que mostra, eu quero os mesmos resultados!” E foi.

Aprendeu o que ele tinha para ensinar. Malemal ensinado. Mais como uma idéia vaga do que deveria ser feito. OK. Mas tem prática! Lá vou ver toda a técnica.

Foi à técnica. Executou à risca com o guru professor à tira-colo. Não poderia dar nada errado, sendo uma “mentoria” com este acompanhamento todo.

De imediato, belissimo resultado. Excelente. Elogios, palminhas e coraçõeszinhos (ela é destas de mandar palminhas… ). Poucos dias dias depois, o resultado havia sido praticamente perdido.

Quando questionado, afinal o procedimento tinha sido acompanhado o tempo todo pelo professor, a justificativa foi muito estranha. Não posso descrever o que se comentou sobre isso para não entregar nomes e técnicas, mas acreditem que foi algo bizarro: Naquele caso aconteceu pelo excesso de flacidez. (coisa estranha, afinal a técnica XXX tinha foco para reduzir este quadro… Obviamente o paciente teria flacidez…)

Ok, justificativa aceita por ela… Até ela ver que o tal “guru pioneiro da técnica XXX no Brasil” estava participando de uma live de um outro professor com perguntas tão básicas que ela até estranhou…

Logo em seguida, vamos ao Instagram! Isso 10-15 dias depois do curso. E lá estava o caso da paciente sendo apresentado como mais um sucesso da técnica. E olha só! O efeito é tão bom que se conseguiu em 2 semanas uma fotografia de 3 meses do efeito!!

Como assim? Fácil!  caso foi apresentado com 3 fotos: Antes, Pós-imediato e 3 MESES DEPOIS. O pós-imediato tava bacana! Daí o cidadão pegou a foto do resultado imediato, deu uma manipulada mal e porcamente (porque  na imagem a paciente inclusive estava com a MESMA roupa…) e apresentou mais um caso de sucesso da técnica XXX.

Daria para montar um gráfico com uma curva de gauss com a credibilidade que este professor emana. Perdeu sua credibilidade para alguns, mas continua firme e forte em encontrar outros otários aluno para vender uma mega blaster curso mentoria com o pioneiro no Brasil da técnica XXX.

E a vida segue, sem ética ou moral.

Penso o quanto alunos são lesados por atitudes como esta.

E na enorme quantidade de gurus temos por aqui em terras tupiniquins. Daqueles que “desenvolvem” suas técnicas, copiando dos outros e mudando nada… Mas dão um nome atrativo e tem um marketing pessoal melhor, muito melhor, que sua habilidade técnica.

Porém as reais vítimas não são os profissionais. São os pacientes.

OU como chamamos em tempos nutella: pacientes-modelo. E há algum tempo li uma matéria da BBC que avalia a ética de se buscar “pacientes-modelo” para harmonização. É de praxe ouvirmos “o curso tem prática?”, ou então “quantos pacientes atendemos durante o curso”.

Não critico, pois são perguntas pertinentes de fato. Mas me deixa espantado que muitos encaram as clínicas práticas em cursos como sendo lugares para “treinar e para dar errado”.

E não é incomum ouvir até dos alunos mais bem intencionados: Errar no curso não tem problema, os professores estão perto e resolvem! Mas no meu consultório não posso errar!

Ética é uma via de duas mãos.

É justo com pacientes-modelo encara-los assim? Como objetos de treino? O paciente modelo de um curso é MENOR, MENOS IMPORTANTE que seu paciente particular?

Será que este é o ethos da Harmonização facial e eu não sabia?

É triste ouvir isso de um colega de profissão. Mas ouvimos, periodicamente.

E, óbvio, ouvimos dos pacientes-modelos. Quantos e quantos destes pacientes não voltam para um controle e afirma que não querem mais passar na mão de tal dupla, de tal equipe do curso de especialização (que é um curso com clínicas recorrentes), dos demais cursos, ouvimos queixas também. Não é diferente, mas o aluno não retornam para fazer o mesmo procedimento.

Enfim, ando repensando muito esta questão de pacientes-modelo e as considerações todas que fiz acima. É correto buscar os pacientes e submetê-los aos procedimentos clínicos sabendo o que pode acontecer ou como poderão ser encarados?

Gostaria de compartilhar o artigo da BBC. Achei o tema bem abordado e que reflete, infelizmente, a realidade em muitos cursos de vários dos “gurus da harmonização”, alguns que somem depois da “performance” e deixam os pacientes a própria sorte, e mesmo os profissionais que encaram estes pacientes como um objeto a ser estudado, e não um ser humano que está se oferecendo para ser um “suporte didático” em troca de tratamentos diversos.

É longo, mas vale a leitura. 


Publicado por:
Mestre em Medicina/Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, Prótese Dentária, Prótese Bucomaxilofacial e em Harmonização Orofacial. Coordenador de cursos em Implantodontia e Harmonização Orofacial do Instituto Velasco, Diretor do Hospital da Face. Trabalha desde 2011 em harmonização facial.