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A Polêmica da Lipoaspiração Submentual.

Nesse final de semana, em um dos nossos vários grupos de discussão, recebi um vídeo de uma médica comentando sobre um procedimento de lipoaspiração mecânica região de papada, criticando o ato com uma indignação absurda algo que tinha acontecido com uma paciente…

Mal comecei o video (era pelo Instagram, eu acho), e pelo tom oportunista lá da colega já imaginei o que poderia ter acontecido… Não sabia o assunto específico, mas já percebia que viria alguma situação em que, mais uma vez, um “não-médico” tinha aprontado das suas…

Realmente. Aprontou. E Feio.

Mas não pense que vou passar pano para a profissional que realizou o procedimento e só criticar os médicos por se aproveitarem da desgraça alheia (porque sim, o fazem, e muito, nada comentam sobre as próprias atrocidades, como o “cirurgião-plástico” acusado de deformar narizes que apareceu na semana passada).

Dei razão a várias das observações feitas sobre o tal caso de lipoaspiração de gordura submental que tinha “dado ruim…”

Ruim, não. Horrível para o paciente, PÉSSIMO para a própria odontologia.

Aos fatos

Ontem resolvi ir atrás da notícia real. Instagram nunca foi minha fonte primária de informação, nem o Whatsapp, e precisava entender o que tinha acontecido de fato.

Nem é tão complexo entender o que houve: paciente de Santa Catarina passou por uma lipoaspiração de gordura submentual, a “lipo de papada mecânica” com uma cirurgiã-dentista. Supostamente por imperícia (não posso afirmar nada) a paciente teve um quadro hemorrágico derivado disso e acabou indo pra UTI. Passa bem e está em observação. Sem mais detalhes.

Mas como tudo que é polêmico pipocam nos grupos dos alunos nos dias seguintes, hoje mesmo acabei recebendo novas mensagens, inclusive com as fotos e video original do procedimento.

Vale um parênteses: o video possivelmente foi feito para ser colocado no Instagram ou algo do tipo e mostra detalhes do procedimento sem identificar os participantes. E vou tomar a liberdade de colocar um trechinho aqui, pois é a partir dele que vamos discutir muitas coisas….

Trecho do procedimento de lipoaspiração mecânica da papada
Trecho do procedimento de lipoaspiração mecânica da papada: sem proteção individual, local de entrada errada, muitas coisas a serem criticadas…

Já estou prevendo que durante esta semana esse tema vai ser retomado e falado e conversado muitas e muitas vezes nos grupos de discussões e na mídia.

Sobre os trechinho do video que coloco acima, gostaria de chamar atenção de alguns detalhes:  não estou falando simplesmente do ponto de acesso (ou melhor, da técnica) para tal lipoaspiração mas todo o quadro que envolve esse procedimento.

Acreditem se quiser, mas o que mais me chamou atenção foi o ambiente onde foi realizado tal procedimento.

Não que o procedimento não possa ser realizado do ponto de vista técnico dentro de um consultório dentário ou em ambiente ambulatorial.

Você que é cirurgião-dentista sabe muito bem que realizamos procedimentos de complexidade infinitamente superior , sob anestesia local e dentro de um consultório “normal”.

Para ficar no exemplo mais direto: o que que você acha de exodontias de 14 elementos e colocação de 4 ou 5 Implantes em mandíbula? Um cirurgião-dentista não vai dizer que não pode ser feito em ambulatório, tenho certeza.

Sem dúvida nenhuma: é um procedimento muito mais complexo do que uma lipoaspiração. E também muito mais demorado, e com um pós-operatório infinitamente pior para o paciente.

Então eu descarto a questão do ambiente ser ambulatorial e não hospitalar.

Mas me deixa muito triste perceber que um profissional que tem na no título de sua profissão o termo CIRURGIÃO não tenha tido o mínimo de preparo cirúrgico para realizar um procedimento invasivo tal qual é a lipoaspiração submental.

Sendo um procedimento cirúrgico, o mínimo esperado e desejado é que o ambiente seja preparado: campo estéril, EPI para paciente e profissional, luvas estéreis (não, ela aparentemente usa luvas de procedimento). Remover maquiagem, correntinha, brinco,  faz parte também.

Pode parecer um exagero meu, mas dentro da harmonização existem vários procedimentos que são encarados usualmente como pouco invasivos. Os  fios de sustentação, por exemplo, no meu ponto de vista são procedimentos cirúrgicos. Mas cansei de ver fios sendo colocados sem campo. Aliás, ouso dizer, é a regra não fazer o uso destes recursos… Vide seu Instagram…

Se formos considerar o aspecto técnico, sim existe a possibilidade de fazer um pertuito em região de ângulo de mandíbula para melhorar a definição no momento da lipoaspiração.

PORÉM, pelas imagens, aparentemente o ponto de entrada que a colega realizou está muito posterior à área de (alguma) segurança. E a filmagem é muito clara nisso: mostrou os movimentos sucessivos bem na região que trespassa a ramificação da artéria/veia facial (na verdade tudo muito próximo por ali: Jugular, carótida, artéria e veia facial, difícil saber o que foi lesionado baseado no video de poucos segundos).

Fica muito claro de que inexiste o conhecimento anatômico mínimo,  ou melhor o conhecimento técnico mínimo para execução de um procedimento como este. Não é de se estranhar portanto que a pior das intercorrências aconteceu: foi lesionado o ramo da artéria facial tão logo esta sai da carótida, ocasionando acidente vascular que levou à UTI a paciente.

Até aqui são os fatos. Mas vamos às pedradas. Mas não à profissional em questão, mas a toda uma classe (e eu me incluo nisso).

As Pedradas

Ontem mesmo vi que o Conselho Regional de Medicina já entrou com uma ação, não saberia dizer especificações da ação.

Se esta ação tomada pelo CRM for realmente visando o bem-estar do paciente, ficaria MUITO contente. Mas o que penso e quase tenho certeza é que essa ação a ser movida não foi contra este procedimento e sim toda contra uma classe completa que nunca esteve submetida ao ato médico

Mas se você observar no link acima, vai perceber: AÇÃO PARA A DEFESA DA MEDICINA, DEFESA DO ATO MÉDICO.

conselho federal de medicina
Eu acho que não li errado, mas penso que está bem claro aqui que a ação defende a medicina e o ato médico, mas não defende a vítima. O QUE VOCÊ ACHA?

Não é uma defesa para proteção do paciente, mas dos profissionais médicos.

É mais um capitulo da saga dos MÉDICOS, estes seres superiores imbuídos do bem e da empatia contra os “NÃO-MÉDICOS”, estes seres abjetos e despreparados que querem tomar o lugar dos médicos nos procedimentos mais lucrativos.

E é muito engraçado ver que o próprio CFM insiste em falar de “procedimentos que estão submetidos ao ato médico”. A Odontologia nunca esteve submetida aos atos médicos. Aliás, nossa legislação, que regulamenta a odontologia foi editada em 1966 enquanto o “ato médico” foi editado em 2013. Ou seja, tivemos nossa profissão regulamentada 50 anos antes do que a própria medicina…

Mas nós sabemos o que vai acontecer agora: os médicos vão cair em cima dos “não-médicos” como se esta fosse uma casta inferior dentro do campo da Saúde sobre os procedimentos de harmonização facial.

Para mim, fica muito claro que o processo que me referi agora refere-se muito mais a uma reserva de mercado do que o bem-estar dos pacientes.

Vale comentar mesmo sendo off-topic: CFM não se mobilizou uma única vez para acabar com as atrocidades que o governo federal fazia sobre os “tratamentos precoces” e vacinação da COVID-19, mas na hora de criticar um cirurgião-dentista, ele fica realmente “todo preocupado com a saúde da população”.

Muita hipocrisia.

Mas as pedras são para os dois lados…

Mas não pense você que eu estou escrevendo este texto para amenizar a situação dos cirurgiões-dentistas ou mesmo do CFO. Muito pelo contrário.

Se existe um conselho de classe que eu critico é o CFO. Nunca, nunca, nunca acertaram a mão no que diz respeito a harmonização orofacial. 

Vou falar mais a seguir, mas vale um parênteses:

Lipoaspiração mecânica da região submentual não é uma novidade tão pouco surgiu junto com a harmonização orofacial. Esse procedimento faz parte dos muitos tratamentos complementares que são feitos em uma cirurgia ortognática,  por exemplo. Então é algo muito anterior a harmonização.

Então minha critica não é a um cirurgião-dentista fazer o procedimento, mas sim um cirurgião dentista SEM FORMAÇÃO ADEQUADA fazer o procedimento.

E o responsável disso é o Conselho Federal de ODONTOLOGIA: em uma canetada, reconhece uma especialidade 100% estética sem colocar limites.

Daí começam a tratar orelha de abano, fazer rinoplastias, lift cirúrgico porque “tá acima do osso hióide e é coisa do dentista sim”, afinal “dentista conhece como ninguém a anatomia da face”… Um monte de frases vazias para justificar a tal canetada. Depois fez um remendo para colocar alguns limites, mas ainda imprecisos e da pior forma possível.

Em uma mesma especialidade o CFO teve capacidade de liberar toxina botulínica,  preenchimento facial e cirurgias plásticas (sim, liberou cirurgias plásticas) como o o lip-lifting e bichectomia.

Não estou questionando se dentista pode ou não pode fazer estas duas cirurgias. Na minha opinião PODE SIM.

Mas minha critica é se coloca em um mesmo balaio todos os profissionais que simplesmente tenham “especialidade de harmonização orofacial” como capazes de fazer cirurgias.

A especialidade, oficialmente, é reconhecida desde que tenha pelo menos 500 horas-aula e que cumpram as disciplinas existentes na resolução que reconhece a especialidade.

Tempo insuficiente para aprender todos os campos que esta especialidade abriga conforme o conceito do CFO. Com essa carga horária, dá para se capacitar bem profissionais para atuar com os principais assuntos: toxina, preenchedores, fios, bioestimuladores, derivados plaquetários, alguns peelings? Sim. Até aí está ótimo.

Mas não dá,  nesta carga horária,  para treinar e capacitar um profissional a fazer procedimentos cirúrgicos complexos.

E nem deveria porque já temos uma área inquestionável dentro da odontologia que trata de cirurgias: a Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial. E que faz lipoaspiração, faz bichectomia desde sempre. Bastaria agregar à área os procedimentos cirúrgicos estéticos que cabem à odontologia.

E muito menos, muito menos, dá para se oferecer o devido conhecimento e treino nestes assuntos  em cursos de finais de semana… Ministrados, muitas vezes, por profissionais que recentemente terminaram de fazer o mesmo curso, ou seja, despreparados e sem tempo mínimo com bunda na cadeira para executar estes tratamentos com excelência.

Porque não se deu a “César o que é de César”? Delimitando os procedimentos reversíveis e menos invasivos dentro da HOF e os mais invasivos somando-se à CTBMF que precisa de 3 anos de curso/residência?

Se houvesse um pensamento neste sentido, mais coerente, a odontologia não ia apanhar tanto, muitas vezes com razão, como é o caso da lipoaspiração que estamos tratando aqui.

Mas não.

Ao se decretar que “dentista pode fazer harmonização” tinha que se esticar a corda até ela quase romper, e o que aconteceu é fruto disso: despreparo profissional.

Aliás, muito dos chutes e pontapés que a Harmonização Orofacial toma é fruto disso. De tentar resolver na canetada e não com o bom-senso.

De permitir que profissionais que não tem o devido cuidado técnico ou conhecimento técnico anatômico suficiente para realizar procedimentos de maior complexidade se acham no direito de realizar procedimentos críticos.

Não se trata de defender direito do cirurgião-dentista de realizar procedimentos harmonização orofacial. Isso eu defendo desde sempre, e sempre defenderei. Mas que faltou uma discussão melhor das consequências de uma liberação forçada dos procedimentos pelo CFO, isso faltou.

Eu acho que o que aconteceu deve servir como uma baliza.

Que tal aproveitar isso tudo e realmente fazer uma regulamentação adequada de cada sub-área harmonização orofacial?

Quem sabe assim encerramos esta saga.

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Publicado por:
Mestre em Medicina/Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, Prótese Dentária, Prótese Bucomaxilofacial e em Harmonização Orofacial. Coordenador de cursos em Implantodontia e Harmonização Orofacial do Instituto Velasco, Diretor do Hospital da Face