Dentista trata dores de Cabeça? Claro!

Dentista trata dores de Cabeça? Claro!

Dor de cabeça, cefaleia tensional, enxaqueca…

Muitos nomes para apresentar um dos maiores males que aflige grande parte da população e que por afetar tanta gente, é negligenciada e tomada como “normal”. A humanidade já comprou a idéia que esta é uma fatalidade genética e passaram a aceitar o problema. Mas não precisa ser assim…

Um estudo da Sociedade Brasileira de Cefaléia mostrou que, no Brasil, há uma prevalência de 15,2% de enxaqueca, 13% de cefaleia tensional e 6,9% de cefaleia crônica diária . Ou seja, mais de 30% da população sofre em algum momento destes quadros dolorosos.

E não é só isso. Dores de cabeça tem uma implicação econômica muito grande. Produtividade no trabalho cai, aumentam as faltas e ausências, além do próprio stress de ter uma redução de ganhos de todos os lados.

Mas dores de cabeça são todas iguais?

Na verdade não. Enxaqueca é uma alteração neurológica, pulsátil e que podem durar de 4 hora a 3 dias e acompanhar vários sintomas como náusea ou fotofobia (intolerância à luz) entre outros.

Já as cefaleias podem ser do tipo tensional, a mais comum e frequente, que dura de 30 min a alguns dias ou mesmo a do tipo crônica, quem que acontecem com frequência quase diária, em mais da metade do mês, e pode ser associada ao abuso de analgésicos (parece paradoxal, mas sim, estes que se tomam para aplacar as dores podem causar um quadro crônico da dor).

E acredite, a dor de cabeça mais comum que temos pode ter causas odontológicas, ocasionadas por vários motivos:

  • Má-oclusões
  • Alterações na dimensão vertical
  • Ausência de próteses ou próteses mal ajustadas
  • Contatos oclusas alterados
  • Quadros infecciosos

Na verdade essa lista é muito maior se quiséssemos falar de todas as possíveis causas. Até mesmo o stress pode ser um fator desencadeador extremamente importante (lembra de tudo que estamos passando com a pandemia de Covid-19?, quem não está estressado?)

Se considerado os principais agentes causais da cefaléia tensional, muitos são quadros de DTMs (as disfunções têmporo-mandiculares) ou mesmo das DMM (dores dos músculos mastigatórios) e que devem ser tratados por cirurgiões-dentistas, permitindo muitas vezes uma remissão completa dos sintomas após o tratamento.

Mas o que quero discutir hoje é justamente o tratamento das dores de cabeça tensionais com o uso da Toxina Botulínica, o famoso Botox®.

Ilustração de quarto dos onze músculos envolvidos nas cefaleias tensionais e DTMs

 

Toxina Botulínica, este mistério…

São seria nenhum exagero falar que a toxina botulínica ainda está sendo descoberta. Mesmo depois do primeiro lançamento comercial em 1989, até hoje continuam identificando aplicações não cosméticas para este versátil medicamento.

E é justamente nestas indicações é que temos sua aplicação em cefaléias tensionais, DTMs e DMMs, e ainda ela pode ser utilizada como um modulador da dor no caso das Enxaquecas.

Se você esteve no planeta Terra nos últimos 20 anos deve ter ouvido falar dos benefícios cosméticos do uso da Toxina e do seu representante mais famoso, o Botox®, né? E se procurar um pouquinho também vai descobrir que o efeito estético da toxina deve-se a uma paralisia muscular seletiva: aplica-se nos músculos que causam marcas e rugas faciais, eles deixam de se movimentar plenamente e as marcas diminuem ou mesmo desaparecem em alguns casos.

E é justamente este mesmo efeito é o que vamos utilizar para o manejo das dores de cabeça tensionais, já que a ação muscular exagerada é um dos desencadeadores das dores.

Ilustração esquemática dos principais neurônios (e os mais conhecidos, também)

Mas não é só isso…

Vale lembrar que estamos falando de uma Neurotoxina, ou seja, a paralisia acontece porque o medicamento age na terminação nervosa motora que movimenta o músculo, e não no músculo propriamente dito.

O mecanismo de ação, de forma bem simplificada é assim: a proteína ativa (ou a toxina botulínica) tem duas cadeias de aminoácidos, chamados simplesmente de “cadeia pesada” e a “cadeia leve”, uma dessas cadeias permite que a toxina entre na terminação nervosa enquanto a outra impede que os neurotransmissores responsáveis pela mobilidade muscular sejam liberados (a acetilcolina é um dos mais conhecidos). OU seja, o músculo fica paralisado porque para de receber o estímulo de se movimentar.

Não falei que estão se descobrindo coisas novas a cada dia? Então… Descobriu-se que a toxina botulínica também tem a capacidade de modular a dor de um jeito análogo à paralisia muscular.

Mas a Nocicepção (o sentido que permite a todos nós sentir dor) não é feita pelo mesmo nervo que faz a movimentação muscular. As dores são mediadas pelos nervos SENSITIVOS enquanto a movimentação muscular é feita pelos nervos MOTORES.

Mas o efeito da toxina é análogo nos dois casos. No caso dos nervos sensitivos, o neurotransmissor que tem sua diminuição é a Substância P, que atua justamente no estímulo doloroso. Ou seja, menos Substancia P, menos dor!

Preparei uma explicação desse mecanismo de ação neste video:

Então veja só que incrível: o movimento muscular excessivo ou descontrolado causa dor, a toxina age controlando o movimento muscular e age também diminuindo a sensação dolorosa!

Então é aqui que podemos perceber a importância da Toxina Botulínica em vários aspectos de diversas dores de cabeça:

  • Nas cefaléias tensionais, vai agir diminuindo a ação muscular e consequentemente a tensão local. Imagine um relaxante muscular que vai exatamente onde precisa agir, sem os efeitos colaterais dos relaxantes de uso sistêmico.
  • Nas cefaléias crônicas diárias, vai permitir a redução do uso de analgésicos e por conseguinte sua melhora.
  • Nas enxaquecas, vai tratar diretamente um componente tensional que pode existir e também, através da redução da substância P, reduzir a frequência e a intensidade das dores.

Mas tratar dores de cabeça, seja lá sua origem, não é igual aplicar toxina para fins estéticos. Não basta simplesmente seguir um protocolo padrão, uma receita de bolo e achar que teremos resultados.

Parte de um tratamento

Tampouco é um tratamento isolado. Isso é o mais importante.

O que quero dizer? Se a enxaqueca é tratada por um neurologista, este tratamento de continuidade deve ser feito por ele. E ele quem vai indicar o uso de antidepressivos, anti-hipertensivos, anti-convulsivantes ou qualquer outro medicamento específico às características de cada paciente.

Nestas situações, a toxina botulínica entra como uma terapêutica complementar que pode ajudar, e muito, os quadros.

O mesmo vale para uma cefaléia tensional que tem componentes odontológicos, ou melhor, que envolva área de atuação do cirurgião dentista, seja dente, músculo, bases ósseas.

O tratamento por um cirurgião-dentista através de artifícios como as placas miorelaxantes, readequação oclusal ou qualquer outra ação devem ser feito concomitantes com o uso da Toxina Botulínica.

Há ainda informações polêmicas sobre um processo de “reabsorção óssea” em mandíbula com o uso da Toxina Botulínica, e não há nada mais errado nesta informação. Muitos profissionais acabaram chamando atenção sobre este efeito sem a devida interpretação dos artigos publicados.

Existe sim um processo de Homeostasia óssea, de ponto de equilíbrio que é alcançado de forma benéfica com o uso da toxina dentro dos manejos das disfunções têmporo-mandibulares. Ou seja, é seguro usar toxina dentro das indicações clínicas.

Sempre afirmo que a toxina não é uma panacéia, o “remédio para todos os males”, mas que ela pode participar de muitos, muitos tratamentos de forma efetiva, isso ela pode. A grande parte dos trabalhos científicos apontam que a redução da intensidade e frequência das dores ou mesmo a eliminação completa da sitomatologia é possível e factível, sobretudo nos quadros que envolve musculatura mastigatória.

Doses, concentrações, identificação dos pontos gatilhos da dor, zonas e profundidade de aplicação entre vários outros fatores devem ser analisados e personalizados para cada um dos pacientes, e uma formação adequada neste campo é importante para que todos os profissionais tenham a capacidade de usar este incrível recurso terapêutico.


Publicado por:
Mestre em Medicina/Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, Prótese Dentária, Prótese Bucomaxilofacial e em Harmonização Orofacial. Coordenador de cursos em Implantodontia e Harmonização Orofacial do Instituto Velasco, Diretor do Hospital da Face