sensaboria científica

Sensaboria Científica

Ficamos pensando se faríamos esta postagem ou não… Faz parte da nossa metodologia (na maior parte das vezes) não dar palco pra maluco, mas acho que vale algumas considerações.

Esta semana fomos “cancelados”. Fizemos a live do Youtube na quarta, como é usual:

Mas na quinta-feira, Meodeosdocéo!

Foi uma enxurrada de colegas nos enviando prints de Stories do Instagram, videos do Reels de uma (suposta) professora que estava se referindo a nós de forma pejorativa, cheia de ameaças e inverdades. Quando fui ver quem era, entendi o motivo:

Esta pessoa era uma das autoras dos vídeos utilizados nesta nossa live de exemplo a não se seguir.

Ou seja, videos que infringem a regulamentação feita pelo CRO, infringem o código de ética de todas as áreas da saúde, não só odontologia, e que não levam em consideração os riscos envolvidos na veiculação de informação técnica e demonstrativa completa de como se realizar procedimentos estéticos.

Videos semelhantes a estes (não estou dizendo que foi este, mas videos que seguem a mesma idéia), foram parte da causa de uma pessoa sem qualquer formação ou conhecimento da área da saúde, se auto fazer uma rinoPLASTIA.

Portanto os motivos da live foram bem específicos:

  • Pontuar que essas aulas completas, abertas para publico técnico e leigo, com demonstrações de aplicação e planejamentos, são perigosas;
  • Clarear a todos os colegas que o CRO não é um órgão fiscalizador, por isso eles não tomam providencias a respeito, a menos que haja denuncia. E essa informação não são todos os colegas que sabem;
  • E para pensarmos que aulas como essas deveriam estar em sites ou plataformas fechadas (ainda que gratuitas, como é o caso no nosso Instituto Velasco PLAY), para minimizar o acesso à população não capacitada

Mas voltando à triste realidade do jardim de infância…

A participação involuntária da cidadã teve exatos 42 segundos de uma live de quase 50 min. E detalhe, não fizemos uma critica pontual a ela, mas de forma ampla para todos que fazem conteúdos semelhantes (quando puder clique no link acima).

Me parece que houve uma “réplica” ao que falamos nesta aula, em um live pelo Instagram, que estranhamente a professora pronuncia que “o que tem que falar fala na cara”, mas nos bloqueou, para que não tivéssemos acesso ao que ela estava falando. Diria BIZARRO!!

E sobre o que presenciamos, posso dizer duas coisas:

  • Que a cidadã tem algum problema com a interpretação do português e que não conseguiu entender que ela não é “O” motivo da live e que o problema não era disponibilizar conteúdo gratuito, mas sim conteúdo inadequado para ficar de forma aberta nos canais de comunicação. (Entendo que a língua portuguesa é realmente complicada e pode gerar essas interpretações errôneas mesmo…)
  • Usou as fantasias para valorizar seu “trabalho de desapego ao dinheiro dos cursos e compartilhar o conhecimento para todos”, obviamente vendendo o “curso imperdível” dela no final da aula…

Vamos dar uma respirada e para isso citaremos uma frase do Umberto Eco:

As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam em um bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis

O ponto é que o mundo está estranho…

Não existe mais campo para o DEBATE. Tudo que se fala, tudo que se pensa abertamente passa a ser alvo de haters, de pessoas que não conseguem ficar num fundo cinza. Ou é branco ou é preto. Ama ou odeia. Ou concorda 100% comigo ou você não merece nada.

Não sei se você sabe, mas meu pai foi professor de faculdade por décadas, desde 1974, e minha mãe começou na carreira acadêmica como professora de português. Hoje é autora de uns 10 ou mais livros (sinceramente, cada hora tem um, perdi a conta) e atua em Psicomotricidade em várias pós-graduações em várias faculdades.

Eu me vi envolvido nesse meio acadêmico desde muito cedo, com uns 19/20 anos, ainda no início da faculdade já acompanhava os muitos cursos que meu pai ministrava em Implantodontia. Isso, lá por 1995, 1996.

E obviamente ia a congressos e eventos. E lembro que muitos destes congressos reservavam um momento para um “pinga-fogo”. Ou hoje em dia estas seriam chamadas de “mesas-redonda”. Um momento de debate de idéias entre professores de bagagens e conhecimentos distintos.

E acreditem, eram os melhores momentos dos eventos. Porque havia debate, não monólogos e certezas.

Porque haviam opiniões divergentes que, mesmo em suas divergências, buscavam o mesmo objetivo final.

Os “profissionais de antigamente” ao serem questionados ou contrariados sabiam, de forma adulta rebater e explicar com base em alguma coisa o que o levou a crer e adotar tal conduta, mas hoje…….

Ahhh os dias de hoje…. Os dias de hoje acontecem assim:

Quando você questiona ou argumenta algum “professor”,  ao invés de vir algum argumento, você ouve uma pessoa histriônica berrando que “se você esta questionando é porque você é invejoso ou porque não esta vendendo curso ou porque é medíocre”

Ou ainda vem a frase chavão do tipo ” Eu sei disso mesmo não tendo trabalhos sobre o tema porque tenho experiência e muito tempo de clínica”…

​Então tá, então…

Cadê a discussão do tipo: “Olha meu amigo, você pode estar enganado porque pensando nisso, acontece tal coisa e que pode levar a isso e por conseguinte chegamos a esta minha conclusão, mas podemos discutir sobre isso”

Isso nos parece muito mais coerente. É a abordagem de um professor decente.

Hoje, não existem argumentos. Argumentos são rebatidos com figurinha do Vampeta pelado:

Ficamos pensando muito pra tentar entender em que momento isso se perdeu e tudo mudou.

Sabe a que conclusão chegamos? Isso mudou, a partir do momento que a classe de “professores” também mudou.

Era preciso uma vasta formação e muito conhecimento para chegar a ser um professor, e isso dava bagagem suficiente para que possamos discutir de forma inteligente as diferentes opiniões.

Infelizmente convivemos hoje com muitos profissionais sem formação de professor, rasos em seus conhecimentos (pensam em “técnicas” quando deveriam entender “conceitos”) e não conseguem, mesmo que queiram, progredir em argumentações e contra-argumentações.

O não-virtual copiando o Virtual

Isto está diretamente ligado ao que falamos semana passada: a forma como os “conteúdos” estão sendo entregues neste mundo hiperconectado está terrivelmente errada.

E esta mudança está, a meu ver, está se refletindo na vida não-virtual. Explico minha idéia, mas e para isso vou usar uma situação recente: o Congresso Full-Face que aconteceu em junho passado.

Neste evento existiu um padrão que foi seguido em todas as aulas: TODAS, começavam com um video motivacional, uma história emocionante de superação e conhecimento, agradecimentos a todos, beijinhos e tchauzinhos para os amigos da plateia, uma enrolação sem limite.

Eram 45 minutos de aula, com muitos atrasos para iniciar porque todos estouravam no tempo tamanha a enrolação, e nos últimos 5-10 minutos arremessava-se a informação da aula.

E tem o jabá, né? No final da aula vem o marketing descarado do curso que o cidadão oferece.

Antigamente (ou nem tão antigamente assim), era um slide e uma frase: “Se tiverem interesse em mais informações, entrem em contato”.

Hoje a vibe é outra: video bem produzido, com toques emocionais e mercadológicos que duram vários minutos (de uma aula de 45!), cupons de desconto, qrcode…

Parecia até propaganda do Polishop ao vivo…

Como se o espaço lá no palco fosse para fazer a propaganda, e não mostrar o que você faz de diferente e oferecer o conhecimento científico para os inscritos no evento.

Ou seja, as aulas que eram para serem técnicas e científicas viraram lives do Instagram​​

E outra coisa. Neste congresso,  nós tínhamos o acesso ao NOME do palestrante, e não ao tema da aula. Em resumo: o PERSONAGEM está acima do conteúdo.

Porque todos lá eram personagens. Não tenho dúvidas. Os mesmos personagens histriônicos que tem que entrar no palco berrando e aparecendo como um superstar.

Não importa o que a pessoa vai falar, mas se é um dos influenciadores que eu sigo no Instagram, eu vou ver a aula!!

E pensando… é muito diferente do que acontece nas mídias sociais?

Penso que 95% das lives que já tive a oportunidade de ver desde o início da pandemia poderiam ter se encerrado depois de 15 minutos se a proposta de entregar o conteúdo sem enrolação fosse desejado….

Economizaria muito tempo. Muito.

Mas vemos o professor lá, se esforçando pra embromar por 1 hora para aumentar o “engajamento”, como se fosse vantajoso perder tempo assistindo o nada…

Tem uns que são feras em enrolar por 2 horas para entregar 10 minutos de informação aproveitável. E fazem isso várias vezes por semana, para entregar gotas de informações.

Gotas de conhecimento em um oceano de platitudes…

Talvez seja um “novo normal”. Ou ainda sou eu que estou reclamando muito. Ou talvez tenhamos expectativas (e esperanças) muito altas.

Ou ainda: somos chatos “vintage”! É isso! Optamos por fazer uma newsletter por email e um blog. Hoje, ninguém lê email e blog é cringe.

Claro que de vez em quando lançamos uma aula ao vivo pelo Youtube. Mas sem enrolar. Melhor 1 hora objetiva do que 2 horas sem nada pra entregar.​​​

É nossa gotinha de inovação e modernidade. Mas daí somos “cancelados” 😂😂

E você? Tem uma sensação semelhante ou é impressão minha?

PS.:

Só de curiosidade:

O Full-face foi 100% de aproveitamento zero.

​​Tava sofrido demais, e a gota dágua veio justamente da (suposta) professora que citei acima do texto. Foi uma aula tão ruim, mas tão ruim que não aguentava mais o xorume e sai ao final da apresentação (sou educado, não ia sair no meio…) e peguei o Uber pra casa.

Tá bom, exagerei.

​​A aula da Prof. Andréa Tedesco foi decente. Única. ​Depois que saí, a Roberta ainda ficou lá, tadinha, e assistiu mais algumas aulas, mas eu não consegui não.


Publicado por:
Mestre em Medicina/Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, Prótese Dentária, Prótese Bucomaxilofacial e em Harmonização Orofacial. Coordenador de cursos em Implantodontia e Harmonização Orofacial do Instituto Velasco, Diretor do Hospital da Face. Trabalha desde 2011 em harmonização facial.