Quanto tempo dura o efeito da Toxina Botulínica?

Quanto tempo dura o efeito da Toxina Botulínica?

Ahhh, os mistérios da toxina botulínica…. Quantas e quantas vezes já pegamos pacientes nos questionando, chateados:

– Doutor, o movimento já está voltando e não faz nem 3 meses que fiz a toxina! Porque o efeito passa tão rápido em mim?

Aí cabem várias observações…

A primeira e mais importante: qual outro medicamento você (ou seu paciente) conhece que tem a duração de meses? Tudo que tomamos duram horas, no máximo dias, mas nada não chega nem perto de semanas, muito menos meses…

Então o tempo de duração não é nada pequeno. Na verdade, é incrível que a toxina botulínica dure tanto tempo! Um único tratamento e são meses de resultado! Mas convém entender o que faz o efeito durar mais ou menos. Vamos falar de 4 pontos importantes que você precisa compreender:

1. Qual a dose efetiva da Toxina Botulínica?

O efeito da toxina é dose-dependente. Isso quer dizer que quanto maior a dose (ou a quantidade de unidades) mais tempo o efeito perdurará. Vamos dar um exemplo estranho mas que será ilustrativo:

Imagine que no músculo que você vai tratar existam somente 10 fibras musculares (só 10 mesmo, é um exercício mental isto que escrevo) e que para tratar cada fibra muscular você precisa de 10 unidades de toxina. Uma para cada fibra.

Então se você aplicar neste músculo especial 10 unidades você vai fazer com que todas as fibras seja paralisadas. Não vou entrar no mérito do mecanismo de ação completo, mas o Botox ou qualquer outra marca do mercado age no nervo motor impedindo a liberação dos neurotransmissores responsáveis por acionar as fibras musculares..

Neste exemplo, todas as terminações motoras foram atingidas pelo neurobloqueador / toxina.

Nesta situação, a única forma de voltar a movimentar aquele músculo é esperar que o nervo se regenere, o que leva em média 4 meses. E isso vai acontecendo aos poucos, voltando à uma normalidade em cerca de 6 meses.

Até aqui, perfeito: é a duração estimada do efeito de todos os medicamentos para este fim no mercado.

Cada fibra nervosa tem uma extensão do nervo que alcança uma única fibra muscular. Este ponto de contato nervo-fibra muscular chama-se junção neuromuscular. Nem todas as junções são afetadas pela toxina deixando algumas fibras ainda “ativas” e funcionais, daí a importância de dosar a quantidade certa de toxina para cada grupo muscular a ser tratado. Imagem: Fonte 

 

Mas vamos supor que o profissional julgou errado a dose necessária e resolveu aplicar somente 6 unidades, o que paralisou somente 60% das fibras.

Graças a um efeito em cadeia, as fibras que não foram atingidas não tem a capacidade de fazer o conjunto todo movimentar, então em um primeiro momento temos a sensação que tanto faz aplicar 10 unidades ou 6 unidades, existe a paralisia do “mesmo jeito” .

Mas isso começa a mudar com o passar do tempo. Isto porque a reparação nervosa não é de um dia para o outro. Ela vai acontecendo aos poucos, dia após dia.

Então acontece o pior: aquelas 4 fibras musculares que não foram afetadas, junto com um movimento parcial, pequeno, das outras 6 começam a fazer o músculo funcionar mais, e o efeito de paralisia vai retornando com maior velocidade.

E aqui justamente dá a impressão de que o efeito “voltou” cedo demais.

Este mecanismo é causado pelo que chamamos de subdosagem (ou seja, uma dose menor do que o recomendado para aquela região).

Infelizmente já ouvimos colegas dizendo que conseguem o mesmo efeito aplicando muito menos toxina e “funciona do mesmo jeito”. Não funciona. Não se alcança um efeito máximo aplicando menos medicamentos.

Do mesmo modo, não adianta exagerar. Se neste músculo imaginário de 10 fibras, que age com 10 unidades de toxina, não adianta colocar 20, o excesso será perdido, ou pior, pode ir para outros músculos que não queremos o efeito.

Por isso existem as doses efetivas para cada músculo. Para garantir que o efeito seja o máximo possivel, e que ofereça um tempo de efeito que satisfaça aos pacientes que investiram no uso da Toxina.

2. Metabolismo

Você já viu um halterofilista comendo? É tanta, tanta comida (suplementado por shakes, proteína e várias outras coisas), que se uma pessoa “normal” comesse do mesmo modo ela ganharia peso, e não ficaria forte.

Já se perguntou porque? Justamente porque para que os músculos cresçam é necessário um aporte tanto calórico como proteico para que exista “alimento” para as fibras musculares funcionarem.

Isso associado a processos catabólico e anabólicos bem definidos e aos esforços progressivos nos treinos aumenta o metabolismo do atleta e o crescimento muscular acontece.

Agora imagine só: não dá pra acelerar o metabolismo de somente algumas células, isso acontece no corpo todo. Inclusive naquela região que você vai tratar com toxina.

Ora. Se todo o metabolismo está maior, é de se esperar que as células nervosas desta pessoa se regenerem mais rápido, não? Elas estão sendo nutridas adequadamente, recebem um estímulo do organismo e vão funcionar melhor…

Então aí começamos a entender a diferença entre tratar um paciente sedentário e um paciente que tem maior metabolismo. O efeito da toxina será mais efetivo no sedentário, enquanto passará mais rápido no halterofilista.

Então considerar o perfil do seu paciente também direciona a dose efetiva. Maior dose nos paciente que fazem atividades físicas pode ajudar nisso, mas via de regra o tempo de efetividade será menor.

Isso vale não só para halterofilista. Vale para que pedala, quem nada, quem tem dificuldade de ganhar peso (porque você acha que não ganha peso? O metabolismo também está mais acelerado)…

Então como dizem por aí: Cada um é cada um. Nada mais batido ou verdadeiro de se falar.

E veja como é difícil ter uma “fórmula” igual para todos os pacientes.

Tem gente que faz academia 2 vezes por semana, outro anda de bike 5 dias na semana, outro faz caminhadas pela manha com o cachorro, tem o que gosta de provas de longa distância, e tem quem fique trancado na academia puxando ferro.

Ou seja, não conseguimos definir uma relação direta de quanto usar em cada caso, nem qual alteração metabólica cada um tem.

Assim, o ideal é perceber em uma primeira aplicação como o paciente responde e depois ir calibrando a dose para que se tenha um bom custo-beneficio de efeito e intervalo de tratamento.

 

3. Cinética facial

Cada pessoa tem um perfil muscular diferente. Existem duas formas de classificar, através da atividade cinética muscular, que é uma maneira de definir como os movimentos acontecem:

Nos pacientes cinéticos, ou normo-cinéticos os movimentos faciais são naturais, vinculados com as reações emocionais recebidas.

Já nos Hipercinéticos, a contração muscular podem acontecer de forma excessiva, são pacientes que, eu costumo brincar, vivem com cara de exclamação. Os movimentos são superlativos, exagerados.

Em oposição temos os hipocinéticos, cujos movimentos determinados grupos musculares são lentos, demorados.

Então pense assim: nos hipocinéticos e cinéticos o efeito da toxina será mais longevo do que nos hipercinéticos. Nests últimos, as doses deverão ser aumentadas dentro do limite de segurança para que o resultado seja efetivo.

. Outra forma de classificar é através da tonicidade muscular:

Nos pacientes Tônicos, a expressividade e tônus muscular normais. Nos hipertônicos as marcas e rugas faciais são compostas, com alterações musculares e grupos que estão em constante tensão, não relaxam mais. Usualmente em fronte, glabela e olhos estes aspectos são mais visíveis.

Já os hipotônicos são indivíduos que apresentam pequena expressividade, flacidez cutânea (pois há perda da sustentação muscular) e acaba derivando em quadros de ptose mais exagerados.

Neste caso, a ação da toxina é viável nos pacientes tônicos e hipertônicos, e os Hipotônicos passam a ser uma contra-indicação de uso sob risco de agravar ainda mais os quadros de ptose e flacidez.

4. Qual marca de Toxina Botulínica dura mais?

Temos no Brasil, aprovados pela Anvisa, muitas marcas de toxina. Botox, Dysport e Xeomin são as mais conhecidas, mas ainda temos outras como o Botulift, Botulim, Prosigne, Nabota e provavelmente entrarão no mercado novas marcas nos próximos anos, existem pesquisas de dezenas de novos medicamentos.

E não tem nada pior do que indicar uma que “dura mais”, haja visto que todas têm sua efetividade comprovada. Você acha mesmo que uma empresa vai se comprometer colocando no mercado um medicamento com menos efeito que os demais?

Claro que existem diferenças, mas elas são muito relativas. Em muitos trabalhos mostram, por exemplo, que usando o BOTOX como referência, o Dysport dura uma semana a mais, e o Xeomin uma semana a menos ou perto disso.

As demais marcas no mercado não tem trabalhos em volume suficiente para afirmar isso, mas extrapolando estas informações, não é de se esperar algo muito diferente. Então podemos considerar que todas tem uma efetividade semelhante.

Tendo em vista tantas variáveis de dose, de paciente, de marcas, difícil fazer qualquer afirmação, concorda? Pense nisso quando você for questionado novamente sobre a duração da toxina botulínica.


Publicado por:
Mestre em Medicina/Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, Prótese Dentária, Prótese Bucomaxilofacial e em Harmonização Orofacial. Coordenador de cursos em Implantodontia e Harmonização Orofacial do Instituto Velasco, Diretor do Hospital da Face