Harmonização Facial e Doenças Autoimunes: como agir?

Harmonização Facial e Doenças Autoimunes: como agir?

Paciente tem vitiligo, posso fazer toxina botulínica? Paciente com tireoidite de Hashimoto pode fazer bioestimuladores de colágeno? Paciente com Lupus pode fazer preenchimento facial?

São perguntas frequentes que aparecem entre nossos alunos, e a resposta é bem estranha: tudo depende…

Mas depende do quê, cara-pálida? É isso que vamos abordar aqui, oras:

O que são doenças autoimunes?

De forma mais genérica, são doenças em que acontece um “curto-circuito” em nosso sistema imunológico pois este passa a acreditar que algumas das proteínas celulares de diferentes áreas e orgãos do corpo são agentes invasores (antígenos) e envia células de defesa (anticorpos) para isolá-las e/ou atacá-las, causando lesões locais e diversos sintomas.

Existem entre 70 e 80 doenças bem descritas na literatura, com sintomas diversos. E não é incomum que tais sintomas sejam associados dando origens a síndromes bem características, como a Síndrome de Sjogren (que afetam glândulas lacrimais e salivares além de articulações, a pele, os pulmões, os rins e o sistema nervoso), ou mesmo a Doença de Crohn (que é uma síndrome apesar do nome e seus afetados tem inflamações crônicas no trato digestivo).

Podem ser sistêmicas (quando afetam vários locais do organismo, como a Esclerose Múltipla ou a Esclerose Lateral Amiotrófica) ou locais, quando um local em específico é afetado (por exemplo a Tireoidite de Hashimoto)

Não existe um único sintoma, estes variam bastante, mas em essência cansaço, perda ou aumento súbitos de peso, mal-estar, dores fortes e localizadas, estão entre os relatos mais frequentes dos afetados.

Os tratamentos envolvem em sua essência o uso de medicamentos imunossupressores como os corticóides que, apesar de controlar as doenças, usualmente seus usuários ficam mais suscetíveis a infecções por vírus e bactérias, por exemplo, afinal isso debilita o sistema de defesa do organismo. Além disso, outros medicamentos podem ser usados para amenizar os sintomas.

De todo modo, o tratamento exige uma adequação de todo o estilo de vida do doente, desde uma alimentação mais específica (como no caso da Doença Celíaca) até mesmo atividades físicas específicas para adiar o aparecimento de osteoporose, perda de força muscular, manter a cognição etc.

Em essência, o afetado por uma doença autoimune vai exigir um acompanhamento constante para que não evolua de forma a comprometer funções sistêmicas e possa-se manter uma rotina “normal”. E a partir deste momento, qualquer procedimento que envolva a saúde do afetado deve ser bem calculado.

Então as doenças autoimunes são contraindicações à Harmonização Facial?

Não disse isso, pequeno gafanhoto. O que disse é que qualquer tratamentos deve levar em consideração as características das doenças autoimunes.

Pera. Como assim? São mais de 70 doenças descritas, e eu tenho que saber todas estas características?

Também não. Isto seria algo impraticável, né? Imagine só: hoje mesmo, com tanta tecnologia e conhecimento sobre estas doenças ainda são descobertos sinais e sintomas que não foram descritos antes. Até mesmo o diagnóstico é extremamente complexo, podendo levar semanas, meses e até anos para uma conclusão.

Então a ação mais adequada para indicar (ou contraindicar) um procedimento estético deve passar pela avaliação do histórico médico pregresso e atual para determinar possíveis ​​contraindicações, o potencial de complicações e balizar suas decisões decisão sobre o tratamento estético indicado.

Sendo a Harmonização Facial uma área em que diversas profissões atuam (médicos, dentistas, biomédicos, enfermeiros entre muitos outros), existindo uma formação distinta para cada profissional, é difícil resumir estas informações médicas de forma objetiva. Até porque, via de regra, a pergunta que todos fazem é:

Paciente toma o remédio X, posso fazer Preenchedor? Paciente usa Y, posso fazer toxina botulínica?

Uma pergunta como esta reduz toda uma sintomatologia e características de uma doença simplesmente à interação de um tratamento com um remédio. Ou seja, ao balizar suas ações somente por esta pergunta, concorda que está sendo deixado de lado muitas informações pertinentes à saúde do seu paciente?

E é muito complexo responder a estas questões, mesmo entre médicos (que supostamente atuam tanto na harmonização como nas doenças autoimunes). De certo, nenhum médico em sã consciência poderia achar que está 100% informado sobre tudo que deve ser avaliado em um paciente acometido por alguma doença.

Então antes de falar do que pode ou o que não pode ser realizado, a ação mais correta neste momento é buscar informações prévias com o médico imunologista ou  quem faz o acompanhamento do paciente para verificar as possibilidades terapêuticas, e disso falaremos mais daqui a pouco.

Quais características comuns às doenças autoimunes?

Via de regra, os corticóides são os principais medicamentos no tratamento de doenças autoimunes, e isso pode interferir muito na Harmonização Facial. Porque? Simples: uso prolongado de corticóides podem alterar o funcionamento dos fibroblastos e interferir diretamente na formação de colágeno. E “preservar e estimular o colágeno”, você bem sabe, é o motto da Harmonização Facial.

Além disso, diversos tratamentos da Harmonização Facial estão relacionados à uma inflamação estimulada. Os bioestimuladores de colágeno são em sua essência materiais bioativos que induzem reações inflamatórias leves, mas por um longo período até que o material se degrade naturalmente. Alguns Peelings podem se encaixar em características semelhantes. Ultrassom microfocado idem. Jato de plasma, Enfim… em essencia, a forma mais eficiente de produzir colágeno é induzir uma inflamação suave, contínua e por um longo periodo de tempo.

E porquê a inflamação acontece? Em muitos casos, justamente porque o material (sobretudo nos bioestimuladores de colágeno) age como um corpo estranho e vai provocar reações imunológicas intencionais (mesmo sendo biocompatível) .

Então aqui temos o pior dos mundos para quem tem doença autoimune: Enquanto o tratamento da doença reduz a reação imune intencionalmente para que o organismo não seja afetado, e de tabela diminui a inflamação generalizada da doença, a harmonização (em alguns casos) fará exatamente o oposto, mas localmente.

Levanto isso em consideração, vamos usar um exemplo:

Lúpus Eritematoso Sistêmico, doença muito comum (5 pessoas a cada 100 mil, e 90% em mulheres) e que afeta a formação de colágeno em muitos orgãos. Como ela se manifesta em surtos periódicos, com erupções cutâneas ou fadiga e dor nas articulações e nos músculos, é possível eventualmente identificar os padrões em seus surtos. Se seus surtos são comuns e regulares, isso pode significar que, possivelmente, os produtos utilizados ainda estejam no organismo em um dos surtos, deste modo é logico pensar que esta frequência de surtos vai tornar este paciente não-eletivo para um bioestimulador de colágeno e outras terapêuticas similares.

Porém se o paciente foi diagnosticado por um dos surtos, e não há recorrência frequente nos mesmos, ou janelas maiores entre os surtos, alguns procedimentos podem ser eventualmente sugeridos, como os preenchedores e toxina botulínica, que tem ação inflamatória baixa e duração limitada de seus efeitos.

Posso tratar, então?

A resposta curta e incompleta é: SIM, pode fazer a harmonização facial. Mas a resposta longa e completa envolve vários “senões”

De modo geral a maioria dos fabricantes de preenchedores, bioestimuladores, fios de sustentação e toxina botuínica recomendará que você não trate um paciente com uma doença autoimune durante o período ativo da doença, também conhecido como “surto”. Que vai de encontro com o exemplo que demos acima: perceba que histórico médico se faz essencial para sua escolha em tratar ou não este paciente.

Mas o mais importante é, sabendo desta condição, o profissional deve procurar informações em sua anamnese que possam apontar indícios de que a doença está entrado em um periodo ativo. Mudanças de medicamentos, sintomas mesmo que leves, vacinação, gripes ou outras infecções virais podem indicar um quadro que inviabiliza o tratamento.

Precisa existir uma comunicação entre o profissional da estética e o médico responsável pelo controle do paciente, e com certeza este poderá se é um momento adequado ou indicado para o tratamento.

Aponte a proposta do seu tratamento eletivo, indique as reações esperadas e ele saberá se isso pode ou não ser um agente desencadeador de um surto ou até mesmo indicar que pode ser feito pois o quadro está em remissão.

Como muitas doenças autoimunes tem sintomas bem definidos  e ciclos de surtos e remissão que são conhecidos pelos doentes (como nos casos de artrite reumatóide, que periodicamente surgem com dores articulares), portanto é possível em alguns casos determinar quando é o melhor momento para que seu tratamento coincida junto com a estabilidade do quadro. Mas isso não anula a necessidade de discutir o caso com o médico imunologista do paciente;

Existem possibilidade de testar se  os produtos a serem utilizados podem causar inflamações mais severas fazendo testes intradérmicos, apesar de que, particularmente, não considero o ideal mesmo porque há pouca base para considerar estes testes como sendo diagnósticos definitivos da indicação de qualquer tratamento.

Os materiais de Harmonização Facial podem causar doenças autoimunes?

A resposta é não. Podemos pensar, eventualmente, em uma associação entre complicações tardias serem induzidas por problemas de regulação da resposta imune, mas não há ABSOLUTAMENTE NENHUMA evidência que apoie este conceito de que tratamentos estéticos com preenchedores possam induzir doenças autoimunes ou que estas induzam a complicações tardias nos preenchedores, por exemplo.

Simplesmente não há literatura científica que valide este pensamento.

Podemos fazer eventuais correlações nos tipos de respostas, por exemplo. Presente tanto nas alergias (dos biomateriais que utilizamos) como nas doenças autoimunes existem reações mediadas por células, sendo chamadas de reação de hipersensibilidade tipo 4, e são de fato hiperatividades no sistema imunológico nas duas situações.

Mas partir daí para justificar que uma coisa causa outra ou vice versa é muita especulação sem base científica.

Esclerodermia e Harmonização Facial.

Penso que um dos quadros autoimunes mais complexos quanto ao seu tratamento na Harmonização Facial é a Esclerodermia. A esclerodermia é uma doença autoimune que é caracterizada pelo “endurecimento” da pele , sem causa conhecida e que pode ser algo a nos preocupar quando indicamos tratamentos de Harmonização Facial.

Derivado do grego, “esclero” que significa dura, resistente e “derma” que significa, obviamente, pele. Usualmente acomete áreas da pele (mão e pés sobrecutdo) que se torna dura, tensa e brilhante.  Isso acontece, devido uma alteração do tecido conjuntivo/colagéneo, que se torna fibrótico e cicatricial (sem elasticidade). Além da pele, podem estar afectados os orgãos internos, já que o colágeno não é uma exclusividade da pele, né? Ou seja, afeta muitos dos órgãos internos (podendo ser sistêmica ou localizada). É uma das doenças autoimunes que afetam o colágeno, com o Lupus Eritematoso parte deste grupo.

Além de crônica, sem cura, apresenta uma variabilidade muito grande no seu prognóstico. Para alguns doentes pode ser somente um pequeno incomodo, outros, torna-se algo grave e de difícil controle.

Em um pequeno levantamento de literatura, apresentamos as informações sobre esta doença para direcionar seu atendimento em eventual paciente afetado por ela:

 

Concluindo

A principal mensagem que deve ficar é: quando aparecer um paciente com qualquer doença autoimune para um procedimento eletivo pergunte-se dos riscos, fale com os profissionais responsáveis pelo tratamento médico dele, pense se está na “janela de tratamento” ideal.

E, principalmente, aja com cautela, para não colocar seu paciente em risco.

Hasta!


Publicado por:
Mestre em Medicina/Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, Prótese Dentária, Prótese Bucomaxilofacial e em Harmonização Orofacial. Coordenador de cursos em Implantodontia e Harmonização Orofacial do Instituto Velasco, Diretor do Hospital da Face. Trabalha desde 2011 em harmonização facial.