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Jato de Plasma e Eletrocautério no Rejuvenescimento e Harmonização Facial

Aqui você encontra a transcrição do Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Instituto Velasco, como requisito para obtenção do título de Especialista em Harmonização Orofacial da Dr. RISSIERY FERREIRA DA SILVA Orientador: Rogério Gonçalves Velasco


Veja no final deste artigo como assistir à apresentação do trabalho e baixar o arquivo em PDF com todas as imagens e referências bibliográficas citadas neste artigo!


1. INTRODUÇÃO

O envelhecimento é um processo biológico e constante que é causado por fatores intrínsecos e/ou extrínsecos. Os fatores intrínsecos estão relacionados ao processo natural e inevitável do passar dos anos e à fatores genéticos, enquanto os extrínsecos estão relacionados à fatores ambientais, como exposição à radiação solar, hábitos alimentares, vícios, entre outros. Apesar de ser um processo natural, homens e mulheres estão cada vez mais em busca de procedimentos estéticos para retardar e/ou minimizar os efeitos do envelhecimento e alcançar uma maior jovialidade e autoestima (FABI et al., 2017).

O Brasil é o segundo país que mais realiza procedimentos estéticos do mundo, ficando atrás somente dos Estados Unidos. De acordo com dados da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS, 2022), os procedimentos na face e na cabeça correspondem a 37% do total de procedimentos realizados. Além disso, o Brasil é o terceiro país em uso de procedimentos injetáveis e o quinto em procedimentos de rejuvenescimento facial, os quais correspondem a 85,1% e 7,3% do total de procedimentos não cirúrgicos, respectivamente.

Como resultado da crescente procura por procedimentos estéticos, uma variedade de opções de tratamento foi desenvolvida ao longo dos anos, desde intervenções cirúrgicas até procedimentos injetáveis e outros minimamente invasivos. Todavia, tem crescido a procura por procedimentos minimamente invasivos. Em 2019, o número de procedimentos estéticos não cirúrgicos aumentou 7,6% em relação à 2018, enquanto o número de procedimentos estéticos cirúrgicos aumentou 7,1% no mesmo período (ISAPS, 2022).

Nesse contexto, diversos profissionais passaram a atuar no âmbito estético e oferecer tratamentos de rejuvenescimento, como médicos cirurgiões plásticos e dermatologistas, esteticistas, fisioterapeutas e, mais recentemente, dentistas. De acordo com a resolução CFO (Conselho Federal de Odontologia) – 198 de 2019, a harmonização orofacial é uma especialidade odontológica. Dessa forma, além de praticar todos os atos pertinentes à odontologia, conforme a Lei no 5.081/1966, o especialista em harmonização orofacial também pode fazer uso da toxina botulínica, preenchedores faciais e agregados leucoplaquetários autólogos em região orofacial e estruturas anexas e afins, realizar intradermoterapia de biomateriais percutâneos de colágeno, procedimentos biofotônicos e laserterapia, realizar procedimentos de lipoplastia facial por meio de técnicas químicas, físicas ou mecânicas, técnica de remoção de corpo adiposo da bochecha e técnica cirúrgica para correção dos lábios (BRASIL, Res. CFO – 198, 2019).

Dentre os procedimentos mais procurados, destacam-se os injetáveis (toxina botulínica e ácido hialurônico), peeling químico, laser ablativo e foto rejuvenescimento. Todavia, a técnica jato de plasma vem sendo cada vez mais comentada e procurada no âmbito da estética, visto que promove excelentes resultados, com destaque para tratamentos de linhas de expressão em áreas críticas como pálpebras superiores e inferiores, região de orbicular bucal e pescoço.

Trata- se de uma técnica que emprega uma corrente elétrica para ionizar um gás (plasma), que ao entrar em contato com a pele, eleva a temperatura e provoca a neocolagênese. Outros efeitos podem ser observados, como retração de tecido e efeito bactericida, coagulante, dentre outros, a depender do gás utilizado (HOCHHEIM, 2018). Além disso, em contraste com os lasers ablativos, o jato de plasma pode deixar uma camada de epiderme intacta e desidratada que atua como um curativo biológico natural e promove uma recuperação mais rápida do que seria observado com laser ablativo (FOSTER et al., 2008).

Ao mencionar o jato de plasma, também é importante mencionar a técnica eletrocautério, que é um equipamento que emite energia elétrica em alta voltagem capaz de causar pequenas queimaduras controladas e coagulação dos tecidos atingidos. Dessa maneira, ocorre a remoção superficial do tecido (sem cortes), dando início a um processo de reparação tecidual com reposição de tecido novo e bem formado (COIMBRA, 2010).

Apesar de os dispositivos de eletrocautério não possuírem como objetivo a formação de um plasma, Guerra et al. (2018) demonstraram que equipamentos de eletrocautério tradicionais podem gerar um plasma filamentar e instável. Talvez por essa razão exista um conflito entre os profissionais da área sobre as diferenças entre as duas técnicas. Nesse sentido, buscou-se, neste trabalho, compreender e elucidar as diferenças entre as duas técnicas, visto que são muito promissoras.

2. OBJETIVOS

2.1 GERAL

Neste trabalho pretende-se compreender e comparar as técnicas de eletrocautério e jato de plasma dentro do contexto de estética facial objetivando o rejuvenescimento.

2.2 ESPECÍFICOS

Descrever o processo de envelhecimento facial e os principais fatores envolvidos;

Apresentar as principais técnicas de rejuvenescimento facial;

Diferenciar e comparar as técnicas de eletrocautério e jato de plasma.

3. METODOLOGIA DA PESQUISA

O presente estudo teórico foi realizado através de um levantamento bibliográfico em bases de dados que trouxeram trabalhos publicados em anais de congressos, artigos publicados em periódicos, dissertações e teses relacionados à temática de rejuvenescimento e harmonização facial com foco nas técnicas de jato de plasma e eletrocautério. Os textos foram utilizados como embasamento teórico para as discussões realizadas neste trabalho, bem como para apresentar estudos que trazem resultados práticos da aplicação das técnicas.

4. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

4.1 Envelhecimento facial

O envelhecimento cutâneo é um processo biológico complexo e contínuo que ocorre naturalmente. Em especial, o envelhecimento facial, que é o que mais incomoda a maioria das pessoas, é afetado pelos seguintes planos: ossos, compartimentos de gordura profundos, sistema músculo aponeurótico, tecido adiposo subcutâneo e seus compartimentos e pele. Resumidamente, durante o envelhecimento facial, ocorre a flacidez cutânea, ação muscular depressora, diminuição volumétrica dos compartimentos de gordura e perda da sustentação profunda devido ao remodelamento ósseo (ZOUMALAN; LARRABEE, 2005).

Durante a fase de envelhecimento ocorre a perda de volume dos ossos e a largura das aberturas ósseas faciais aumentam (PESSA et. al., 1998; ITO et. al., 2001), causando a queda da pálpebra, aprofundamento do sulco nasojugal (olheira), alargamento e queda da ponta do nariz, redução da altura maxilar do terço médio, acentuamento do sulco mentolabial (ou mentoniano), perda da projeção da borda orbital inferior, dentre outras alterações, conforme mostra a Figura 1 (PESSA, 2000; WOODWARD, 2016).

Figura 1: Efeito do envelhecimento nos ossos da face.

O envelhecimento das camadas de gordura também provoca importantes alterações visíveis na face. Abaixo da pele existe uma camada superficial de gordura que recobre quase a totalidade da face e pode ser dividida nos seguintes compartimentos: gordura orbital superior, gordura orbital inferior, gordura orbital lateral, gordura da bochecha medial, gordura da bochecha média, gordura nasolabial e gordura lateral da bochecha temporal, como mostra a Figura 2 (GIERLOFF, et al., 2012).

Figura 2: Representação ilustrativa das relações anatômicas dos compartimentos de gordura facial.

A gordura presente nesses compartimentos, fornece volume e estabilidade facial (STUZIN et. al., 1992). Em rostos jovens, a distribuição de gorduras superficial e profunda é considerada adequada, fornecendo características desejadas, como definição. Com o passar dos anos, ocorre uma perda de gordura, principalmente ao redor da órbita, fronte, glabelas, mandíbula, região malar, mentoniana e perioral, de forma que essas regiões se tornam mais delgadas e os sulcos ficam mais aparentes (GIERLOFF, et al., 2012; WANG et. al., 2017). É importante destacar que um adequado aporte sanguíneo é fundamental nessa região. A diminuição do suprimento de sangue no tecido adiposo pode gerar a perda de volume facial devido à atrofia do tecido adiposo e diminuição no suprimento de fluídos, oxigênio e nutrientes para a pele e tecidos adjacentes (SATTLER; GOUT, 2017).

Além dos ossos e compartimentos de gordura, os músculos da face, que estão situados logo abaixo da pele, possuem influência significativa na aparência dos indivíduos no decorrer do envelhecimento. A musculatura é composta por inúmeras fibras, as quais são constituídas de miofibrilas, que são filamentos de proteínas polimerizadas responsáveis pela contração, a actina e miosina. Quando ocorre a contração muscular, esses filamentos se sobrepõem. Dentre as funções dos músculos faciais, podem ser citadas a mastigação, a fala e movimentos que promovem a expressão facial. Esses movimentos provocam a contração da musculatura, provocando depressões caracterizadas por linhas perpendiculares à direção das fibras (HALL; GUYTON, 2017).

À medida que o indivíduo envelhece, os músculos dos terços médio e inferior sofrem diminuição de seu tônus, o que leva à flacidez muscular. Já no terço superior ocorre um aumento do tônus, levando à rigidez local, ou seja, ao surgimento de rugas. O músculo corrugador do supercílio e depressor do ângulo da boca, e alguns músculos elevadores, por exemplo, perdem a força muscular, diminuindo a massa muscular e o volume da região, como o levantador do ângulo da boca e zigomático menor e maior. O tônus muscular é o estado natural de tensão do músculo e a força muscular é a capacidade do músculo resistir a uma carga. Dessa forma, com o passar do tempo, os músculos elevadores da região malar contribuem para uma expressão facial cada vez mais caída e sisuda, característica do envelhecimento (SATTLER; GOUT, 2017). De acordo com Perricone (2001), a flacidez não está associada somente à perda de tônus muscular, mas também à diminuição de algumas substâncias químicas e precursores nutricionais dos músculos, como acetilcolina.

Diante disso, fica claro que para prevenir o envelhecimento, existem alguns músculos faciais que devem ser estimulados, enquanto outros devem ser relaxados para diminuir sua atividade e minimizar as linhas de expressão. A Figura 3 apresenta alguns músculos da face que devem ser estimulados e outros que devem ser relaxados, os quais estão circulados em vermelho e verde, respectivamente.

Figura 3: Representação ilustrativa da musculatura da face com indicação dos músculos que devem ser estimulados e relaxados.

3.1.1 Fatores intrínsecos e extrínsecos

Ainda que o processo de envelhecimento seja inevitável e, portanto, previsível, ele ocorre em velocidades e maneiras diferentes para cada indivíduo. Isso porque o processo de envelhecimento depende de fatores extrínsecos e intrínsecos (FABI et al., 2017).

Os fatores intrínsecos estão relacionados com a idade e genética de cada indivíduo, portanto, estão relacionados às alterações hormonais e bioquímicas associadas, tornando evidente a influência do tempo e da hereditariedade. As alterações intrínsecas ocorrem na epiderme, nas camadas de gordura subcutânea e na musculatura facial, contribuindo para com a formação de rugas e flacidez (BOLGNIA, 1993).

À nível celular, verifica-se a diminuição da captação de nutrientes, da replicação celular, da capacidade de reparo dos tecidos, de fibras colágenas, da defesa antioxidante e imunológica, da hidratação, da renovação dos queratinócitos, da resistência as agressões externas, da vascularização capilar, da síntese de vitamina D e dos melanócitos ativos. Como resultado, tem-se uma pele mais frágil com mais radicais livres. Os radicais livres são compostos instáveis por conter um elétron desemparelhado, sendo, portanto, altamente reativos. Essa característica faz com que os radicais livres capturem elétrons de outras moléculas para tornarem-se estáveis, desencadeando uma reação em cadeia que provoca danos ao organismo e morte celular, o que agrava ainda mais o processo de envelhecimento. As principais moléculas afetadas são o colágeno e o ácido hialurônico. Dessa forma, o uso de antioxidantes, que possuem a função de ligar-se ao elétron desemparelhado do radical livre, é eficiente para que minimizar os efeitos adversos dos radicais livres (HIRATA et al., 2004).

Por outro lado, o envelhecimento extrínseco está relacionado com fatores ambientais externos aos quais o indivíduo é submetido, como a exposição à radiação ultravioleta (UV), exposição à poluição, ação da gravidade, tabagismo, alcoolismo, consumo de água, alimentação, qualidade do sono. A força gravitacional é capaz de deslocar os tecidos subcutâneos, como a queda das pálpebras, nariz, lábios e bochechas (BOLGNIA, 1993). A exposição à radiação UV aumenta a mutação genética e degradação do colágeno e provoca hiperpigmentação, resultando na diminuição da permeabilidade a água e nutrientes (STEINER, 1995).

Em conjunto, os fatores intrínsecos e extrínsecos provocam alterações na pigmentação; irregularidades na textura da pele; atrofia da gordura facial, levando a depressões na região orbital, temporal, e espaços bucais; e desmineralização óssea, agravando o processo de envelhecimento (BOLGNIA, 1993). Em especial, o envelhecimento associado à perda progressiva dos coxins de gordura da face e ao declínio da elasticidade da pele contribui para o aparecimento de sulcos e depressões, comprometendo a harmonia da simetria facial. Na maioria das vezes, as rugas estáticas que se desenvolvem no indivíduo transmitem expressões de tédio, fadiga, raiva e/ou tristeza (BERGIN, 1995).

Diante disso, a busca por tratamentos estéticos que contribuem com a minimização e retardamento do processo de envelhecimento está aumentando com o passar do tempo, especialmente dos tratamentos estéticos não cirúrgicos. De acordo com dados mundiais da International Society of Aesthetic Plastic Surgery, em 2020 foram realizados mais de 14,4 milhões de procedimentos estéticos não cirúrgicos, enquanto que o número de procedimentos cirúrgicos foi de aproximadamente 10,1 milhões.

Aliado aos tratamentos que visam o rejuvenescimento facial, também é crescente o número de indivíduos em busca de tratamentos não cirúrgicos para procedimentos de harmonização facial. No próximo tópico, são abordadas as principais técnicas empregadas para essas finalidades, com maior ênfase nas técnicas jato de plasma e eletrocautério, que são o objetivo do presente trabalho.

4.2 Harmonização e rejuvenescimento facial

A harmonização facial pode ser entendida como um conjunto de procedimentos estéticos que tem como finalidade melhorar o equilíbrio simétrico do rosto e contornos faciais, tornando-o mais harmônico. Há ainda o termo harmonização orofacial, que está relacionado particularmente com procedimentos que visam tornar os terços da face do indivíduo visualmente mais proporcionais e próximos do natural. Muitas vezes, os procedimentos de harmonização facial se alinham aos procedimentos de rejuvenescimento, como é o caso da toxina botulínica, visto que a paralização da musculatura, além de ser capaz de melhorar alguns problemas de simetria, como sorriso gengival, também promove o retardamento do aparecimento de rugas (RODRIGUES, 2021).

Ainda que existam procedimentos cirúrgicos bem estabelecidos para minimizar os efeitos do envelhecimento e condições de desarmonia, como a técnica de ritidectomia ou lifting facial cirúrgico, que é considerada padrão ouro para rejuvenescimento facial de intensidade moderada a grave, e outros como blefaroplastia, rinoplastia, cirurgia ortognática, bichectomia e lipoplastia cervical, há uma busca crescente por procedimentos menos invasivos, com um período de recuperação mais curto e resultados satisfatórios. Dessa forma, serão abordados no próximo tópico alguns dos principais procedimentos não cirúrgicos (RODRIGUES, 2021).

4.2.1 Principais técnicas não cirúrgicas empregadas

De acordo com os dados da International Society of Aesthetic Plastic Surgery 2020, em relação à 2016, houve um aumento dos procedimentos não cirúrgicos injetáveis de 24,1%, com destaque para toxina botulínica, ácido hialurônico, hidroxiapatita de cálcio e ácido poli-l-lático. Em contrapartida, em relação ao mesmo

período, houve uma diminuição de 13,2% nos procedimentos de rejuvenescimento facial, os mais procurados foram o peeling químico, laser ablativo e foto rejuvenescimento. No Brasil, os procedimentos faciais não cirúrgicos mais comuns em 2020 foram aplicação de toxina botulínica, ácido hialurônico, peeling químico e hidroxiapatita de cálcio. O país ocupa a quarta e a quinta posição no ranking mundial de aplicação de toxina botulínica e ácido hialurônico, respectivamente.

Os procedimentos de preenchimento facial e aplicação da toxina botulínica com finalidade estética são capazes de corrigir alterações que podem ocorrer ao longo dos anos no contorno e volume da face e lábios. A procura por esses tipos de tratamentos tem aumentado em virtude de apresentarem resultados imediatos e próximos do natural sem que haja a necessidade de recorrer a procedimentos invasivos (MAIA; SALVI, 2018).

A toxina botulínica busca prevenir a intensificação dos sulcos já existentes na pele e a formação de novos sinais de expressão (MAGRI & MAIO, 2016). O tratamento é relativamente simples e consiste em uma série de injeções (microgotas) da toxina diluída em intervalos de 0,8 a 1,0 cm na derme ou na interface entre a derme e a camada superficial dos músculos faciais. O resultado dessa aplicação é o enfraquecimento das fibras musculares superficiais que estão inseridas na superfície inferior da pele, que são responsáveis pelas linhas finas e rugas no rosto e pescoço. Além disso, ocorre a diminuição da atividade das glândulas sudoríparas e sebáceas para melhorar a textura e o brilho da pele e para atingir a camada superficial dos músculos que se ligam à superfície inferior da derme, causando rítides visíveis. É uma técnica eficaz para alongar rugas e para recuperar a textura e qualidade natural da pele (BERTOSSI et al., 2019).

Santos et al. (2020) realizaram a harmonização facial em paciente com paralisia periférica de Bell por meio da aplicação de toxina botulínica com o objetivo de alcançar um reequilíbrio do tônus muscular. Os pesquisadores identificaram os músculos que estavam em hiperatividade para receber a toxina. Após 2 dias o paciente começou a sentir os efeitos do relaxamento e passados 15 dias pode-se observar uma face mais harmoniosa e simétrica. Segundo o paciente houve influência positiva na sua autoestima e convívio social.

Com relação aos preenchedores, o que ocorre é o preenchimento de déficits de volume e melhoria dos contornos da superfície facial. Trata-se de um método que rapidamente ganhou uma aceitação notável na última década para melhorar as características topográficas da face humana de forma confiável. O tratamento pode ser realizado de forma profunda ou intradérmica, podendo ser utilizado para preencher depressões cutâneas superficiais, como linhas finas e para melhoria adicional de atributos de qualidade da pele, como hidratação e elasticidade.

Existem, no mercado, diversos tipos de preenchedores faciais, que podem ser classificados de acordo com o seu tempo de permanência no organismo: permanente e semipermanente. Os preenchedores permanentes, como o próprio nome diz, têm um efeito permanente, ou seja, não são absorvidos. Alguns exemplos são a gordura autógena, que pode ser retirada de áreas doadoras, como barriga ou flancos, e polímeros, como polimetilmetacrilato e hidrogel de poliacrilamida, que podem ainda ser combinados com colágeno para sua aplicação. Já os preenchedores semipermanentes, são absorvidos pelo organismo após um período de tempo, alguns exemplos são o ácido hialurônico, produtos à base de hidroxiapatita de cálcio ou ácido poli-L-lático (VARGAS et al., 2009; NASSIF et al., 2015).

Com exceção do ácido hialurônico, o mecanismo de ação dos preenchedores é baseado na presença de microesferas que compõem o produto e estimulam a neocolagênese a partir de uma resposta inflamatória subclínica localizada, o que resulta no aumento de fibras de colágeno pelos fibroblastos, além disso elas servem como arcabouço para os novos tecidos. Nos preenchedores permanentes as microesferas não são degradadas pelo organismo. Já o mecanismo de ação do ácido hialurônico é através da imobilização de água no tecido, alterando o volume dérmico e a viscoelasticidade da matriz extracelular (LIMA; SOARES, 2020).

Dentre os semipermanentes, o ácido hialurônico normalmente é a primeira escolha da maioria dos profissionais, pois é uma substância que está presente naturalmente no corpo humano, principalmente na pele. Isso faz com que ele seja altamente compatível biologicamente e possua baixo risco de alergias, além disso, não induz reações inflamatórias e não possui substâncias. Além do ácido hialurônico proporcionar volume, sustentação, hidratação, e elasticidade à cútis, ele age como sequestrante dos radicais livres, aumenta a proteção da pele em relação à radiação UV e contribui para o aumento da capacidade de reparação dos tecidos carcinogênicas (FELIPE; REDONDO, 2015).

De acordo com um estudo de revisão sistemática realizado por Cohen et al. (2013), com base em 53 relatos clínicos publicados, que englobaram 4605 pacientes, o AH é um preenchedor eficaz e seguro. De acordo com esse estudo, o total de complicações decorrentes do uso do ácido hialurônico como preenchedor facial dérmico foi inferior a 1%.

Ainda que a toxina botulínica e o uso de preenchedores sejam técnicas isoladamente excelentes para harmonização e rejuvenescimento facial, os profissionais geralmente desenvolvem um protocolo de procedimentos de renovação da derme e epiderme associados a essas técnicas, como microagulhamento, peelings, lasers e radiofrequência. Cada um desses procedimentos possuem um mecanismo de ação diferente, porém, com exceção da radiofrequência, todos possuem basicamente o efeito de criar uma lesão controlada e estimular a renovação da pele. Por essa razão, o ideal é que os procedimentos de renovação da derme e epiderme, bem como de estimulação de colágeno, sejam feitos antes da aplicação de toxina botulínica. A radiofrequência, por exemplo, é uma das técnicas mais eficazes para estimulação de colágeno e combate à flacidez, porém, se realizada após a aplicação da toxina botulínica, diminui os efeitos da paralisação muscular. Já os peelings e o microagulhamento são benéficos para aplicações ligeiramente anteriores à aplicação da toxina, pois normalmente possuem a ação de renovação da derme e a epiderme (HOCHHEIM, 2018).

O microagulhamento pode ser realizado com roller, que é um rolo constituído de agulhas de aço inoxidável ou dermapen, que é uma caneta constituída de agulhas descartáveis. Neste último caso, o dispositivo pode ser manual ou elétrico e permite ajustar o número de agulhas, bem como o seu tamanho. O uso de ativos concomitantemente com o microagulhamento é bem-vindo, pois durante o procedimento são criados microcanais que aumentam a permeação dos ativos. Trata-se, portanto, de um mecanismo físico (HOCHHEIM, 2018).

O peeling também pode ter um mecanismo físico, como o peeling de diamante e de cristal. No primeiro ocorre uma microdermoabrasão através de uma ponteira de diamante que fica conectada a um aparelho com sistema a vácuo que desliza sobre a pele. Já no peeling de cristal ocorre uma esfoliação por meio de um sistema que lança um fluxo de microcristais (óxido de alumínio quimicamente inerte) na pele. Existem também os peelings que possuem mecanismo químico, que são os chamados peelings químicos. Nesse caso, é realizado o uso de um ou mais agentes químicos sobre a pele, como ácido retinóico, ácido glicólico, ácido salicílico, dentre outros. A ação do peeling irá depender do tipo de substância empregada, podendo ser de hidratação, renovação celular, clareamento, antioxidante, entre outras.

Os lasers fazem parte dos aparelhos de fototerapia, os quais agem através do princípio da fototermólise seletiva, que nada mais é do que a capacidade dos feixes de luz atingirem seletivamente determinadas estruturas sem afetar as estruturas adjacentes. Existem diversos tipos de laser, a depender da potência aplicada, eles podem promover um efeito térmico acima de 100°C. A absorção e a transmissão da radiação do laser dependem basicamente de dois fatores: o comprimento de onda e a natureza do absorvedor (cromóforo). Dessa forma, os lasers podem ser do tipo ablativos, ablativos fracionados e não ablativos fracionados. Na estética facial, os lasers mais utilizados são os ablativos fracionados, como o laser de CO2 fracionado e o Erbium fracionado, e os não ablativos, como os Erbium modificado, Nd:YAG,entre outros (HOCHHEIM, 2018).

Além da fototerapia, existem procedimentos baseados na eletroterapia, como

é o caso da radiofrequência, que nada mais é do que o uso da energia elétrica transformada em outra modalidade vibracional, as ondas de rádio. Trata-se de uma técnica que utiliza corrente elétrica de média intensidade não ablativa, capaz de induzir a formação de colágeno sem o rompimento da epiderme. As principais indicações da radiofrequência são: flacidez tecidual, fibroses, celulite, entre outras (AGNE, 2011). É notável que os recursos eletroterápicos estão avançando a uma alta velocidade. A todo momento são lançados no mercado estético novos aparelhos com novas funcionalidades que propõem melhores resultados ao cliente, sempre visando minimizar o desconforto e os efeitos adversos. Diante disso, o próximo tópico irá abordar de maneira mais acurada a eletroterapia com enfoque nas técnicas jato de plasma e eletrocautério.

Bertossi et al. (2019) submeteram 45 pacientes de 35 a 52 anos à 5 sessões de laser Fraxel (laser fracionado não ablativo), 1 sessão de preenchimento com ácido hialurônico e 1 injeção de toxina botulínica de janeiro de 2016 a janeiro de 2017. Os autores demonstraram que o uso dos três tratamentos juntos tem um resultado melhor em comparação com cada técnica isolada. O resultado clínico mostrou que 98% dos pacientes tiveram uma superfície de pele mais lisa, pele mais brilhante, mais hidratada e mais elástica; 68% dos nossos pacientes apresentaram menos imperfeições e manchas na pele, bem como menos pequenas rugas e 98% apresentaram pele mais firme com menos secreção de glândulas sebáceas.

4.2.2 Eletroterapia

Na eletroterapia são utilizadas correntes elétricas como agente terapêutico. A aplicação pode ser de forma direta ou transformada, isto é, quando a energia elétrica se transforma em outras modalidades vibracionais, como o som (ultrassom) e as ondas de rádio (radiofrequência). As correntes elétricas podem ser utilizadas como recurso terapêutico em diversos tratamentos, como reabilitação, controle da dor, fortalecimento muscular, acometimentos do sistema locomotor, dentre outros (FILIPOVIC, et. al., 2011). Na área da estética, a eletroterapia atua na prevenção do envelhecimento, pois os tratamentos são capazes de atenuar linhas de expressão e diminuir a flacidez muscular. Alguns exemplos de tecnologia nessa área são o ultrassom microfocado, a radiofrequência fracionada microagulhada, criofrequência facial, jato de plasma e eletrocautério.

O ultrassom é uma tecnologia que utiliza um conversor chamado de cristal piezoelétrico, ele é capaz de transformar a energia elétrica em energia mecânica, então são transmitidas ondas ultrassônicas pelos cabeçotes do aparelho, as quais são capazes de estimular os tecidos corporais. O tecido atingido será determinado pela frequência de emissão das ondas ultrassônicas, em geral, em frequências maiores (3 MHz) ocorre absorção nas primeiras camadas (pele), enquanto em frequências menores (1 MHz) ocorre absorção em camadas mais profundas (músculo), conforme ilustra a Figura 4.

Figura 4: Absorção tecidual entre o ultrassom de 1mHz e 3 mHz.

Recentemente, foi desenvolvido o ultrassom microfocado, uma tecnologia que promove o fornecimento de calor transcutâneo que é capaz de atingir o tecido conjuntivo subdérmico em zonas focalizadas em profundidades programadas. Dessa forma, é produzida uma resposta consistente em múltiplos níveis de profundidade, com remodelação robusta de colágeno e um efeito mais duradouro. É importante ressaltar que o ultrassom microfocado é diferente do ultrassom focalizado. O ultrassom focalizado libera uma alta quantidade de energia e é usado principalmente para aplicações médicas, como para tratamento de tumores sem ablação cirúrgica e remoção de tecido adiposo localizado para o contorno corporal, este último pode liberar de 47 a 59 J/cm2 de energia, com uma frequência próxima de 2 MHz, atingindo a profundidade focal de 1,1 a 1,8 cm. Por outro lado, o ultrassom microfocado usa uma menor quantidade de energia para tratar as camadas superficiais da pele, de 0,4 a 1,2 J/mm2, com frequências de 4 a 10 MHz, o que pode atingir uma profundidade focal de apenas 1,5 a 4,5 mm. Ainda que o ultrassom microfocado libere uma menor quantidade de energia, ele tem capacidade de aquecer o tecido em torno de 60°C, produzindo pequenos pontos de coagulação térmica numa profundidade de até 5 mm dentro da camada reticular média e profunda da derme e subderme, enquanto poupa as camadas papilares dérmicas e epidérmicas sobrepostas da pele. Esse efeito provoca uma lesão térmica, remodelando o colágeno e eliminando rugas e flacidez da pele (BORGES; SCORZA, 2016).

Pelo fato da energia e profundidade focal do ultrassom emitido poderem ser ajustados, o tratamento com ultrassom microfocado pode ser personalizado para atender às necessidades individuais de cada paciente. Os transdutores dos equipamentos podem emitir frequências de 2 a 10 Mhz com profundidades focais de 1,5 a 13 mm. Esses transdutores podem ser usados em combinação para atingir a derme (10 MHz = 1,5 mm), a derme profunda (7 MHz = 3,0 mm) ou os tecidos subdérmicos (4 MHz = 4,5 mm). Transdutores de profundidade focal de 10 e 7,0 MHz, por exemplo, que atingem 1,5 e 3,0 mm de profundidade, respectivamente, são indicados para melhorar a flacidez infraorbital da pele (BORGES; SCORZA, 2016).

Por sua vez, a radiofrequência compreende uma energia eletromagnética com uma faixa de frequência de ondas maior, entre 30 KHz e 300 MHz no espectro eletromagnético. A potência empregada tem a finalidade de elevar a temperatura tecidual a níveis que possam favorecer respostas fisiológicas perfeitamente controláveis. Esse tipo de calor pode alcançar os tecidos mais profundos, mas quando atinge a pele ocasiona a desnaturação e contração das fibras colágenas existentes, consequentemente os fibroblastos são ativados, levando à neocolagênese, à reorganização das fibras colágenas e ao subsequente remodelamento da estrutura dérmica (AGNE, 2011).

Tradicionalmente, a radiofrequência é considerada uma técnica não ablativa, mas também existem aplicações ablativas capazes de induzir a formação de colágeno. As principais indicações da radiofrequência são para o tratamento de flacidez tecidual, fibroses, celulite, entre outras. Tratando somente de estética facial, o resultado final engloba a tonificação da pele e diminuição de rugas e linhas de expressão. Em especial, a radiofrequência fracionada utiliza um sistema de fracionamento energético randômico das ondas eletromagnéticas que respeita o tempo de relaxamento térmico tecidual de maneira semelhante ao laser de CO2 fracionado, porém, empregando outra fonte energética. Ocorre o aquecimento ou ablação da superfície da pele, com múltiplos e pequenos focos de aquecimento, medindo de 100 a 400 μm em cada ponto, um exemplo é a radiofrequência fracionada microagulhada (CASABONA et al., 2014).

A radiofrequência fracionada microagulhada foi impulsionada pela busca de resultados mais contundentes em poucas sessões. As agulhas dielétricas (corpo revestido com material isolante) de 0,5 a 3 mm, estéreis e de uso único, que são inseridas na superfície da pele geram um aquecimento agressivo na derme reticular sem danos térmicos na superfície da pele, pois só a ponta das agulhas transmite a energia eletromagnética profundamente, conforme ilustra a Figura 5. Assim, ao aquecer o colágeno dérmico profundo a uma temperatura mais elevada do que poderia ser utilizado com segurança no nível da epiderme, é possível obter um efeito de contração do colágeno mais forte para melhorar as rugas profundas e aumentar o endurecimento da pele. Além disso, a radiofrequência fracionada microagulhada é capaz de fornecer uma rota direta para a liberação transdérmica de grandes moléculas hidrofílicas, como fatores de crescimento que surgem como novos tratamentos antienvelhecimento (SEO et al., 2013).

curso de jato de plasma
Figura 5: Modo de ação da radiofrequência fracionada microagulhada.

A criofrequência também utiliza o calor gerado pela radiofrequência como promotor da neocolagênese, no entanto, é realizado o resfriamento simultâneo da pele objetivando protegê-la. A manopla do equipamento resfria a superfície cutânea em até 10oC negativos, enquanto a derme é aquecida em até 60oC, causando choques térmicos entre derme e epiderme. Na epiderme resfriada ocorre um efeito lifting imediato, em contrapartida, na derme aquecida se inicia o processo de neocolagênese, esse processo dura cerca de 21 dias. Dentre os efeitos gerados, observa-se a remodelação do colágeno e diminuição de rugas e flacidez, além da melhora de todos os contornos faciais. O resfriamento permite que o tratamento seja realizado inclusive em pessoas com rosácea e Melasma (HOCHHEIM, 2018).

Mais recentemente, o jato de plasma tem sido bastante comentado. Assim como as outras técnicas apresentadas, o jato de plasma proporciona a elevação da temperatura da pele, induzindo uma lesão que provoca o reparo tecidual. Para isso, os equipamentos utilizam uma descarga contínua de corrente elétrica, que promove a ionização de um gás, que é o plasma. Quando este gás ionizado (plasma) atinge a superfície da pele, ele produz um dano térmico que estimula a produção de colágeno além de promover uma reestruturação no padrão organizacional das fibras elásticas. A reestruturação ocorre devido à retração de tecido que a aplicação do

jato de plasma provoca, ou seja, ocorre uma diminuição da quantidade de pele, por isso a técnica também ficou conhecida como blefaroplastia sem cortes. Esses mesmos efeitos são observados ao utilizar o eletrocautério, que é um equipamento que emite energia elétrica em alta voltagem capaz de causar pequenas queimaduras controladas e coagulação dos tecidos atingidos. Dessa maneira, ocorre a remoção superficial do tecido (sem cortes), dando início a um processo de reparação tecidual com reposição de tecido novo e bem formado (COIMBRA, 2010).

Para ambas as técnicas, as contra indicações incluem mulheres grávidas, mulheres em período de amamentação, predisposição para desenvolver queloides, uso de isotretinoína nos últimos 6 meses, tipos de pele mais escuros (Fitzpatrick tipos V e VI), pacientes com barreira cutânea não íntegra, condições inflamatórias de pele e infecções ativas.

Diante do exposto, a diferença entre o eletrocautério e o jato de plasma pode ficar mal compreendida. De fato, existe um conflito ente as duas técnicas. No Brasil, é comum encontrarmos no mercado estético aparelhos de eletrocautério fazendo referência aos aparelhos de jato de plasma. Contudo, estudos envolvendo jato de plasma e eletrocautério ainda são escassos na literatura. Apesar disso, a fim de buscar um melhor entendimento dessas técnicas e esclarecer suas similaridades e diferenças, maiores detalhes de ambas estão apresentados nos próximos tópicos.

4.2.2.1 Eletrocautério

O eletrocautério clássico corresponde a uma técnica já bem estabelecida usada para aquecer e/ou destruir um tecido por desidratação de células, ruptura e carbonização. O equipamento transforma a corrente elétrica de baixa frequência em corrente de alta frequência, seguindo o mesmo princípio de um bisturi elétrico, mas aperfeiçoado para remoção superficial do tecido (sem cortes). O mecanismo de ação do equipamento consiste em uma descarga de energia elétrica controlada que irá promover uma queimadura superficial, a qual irá estimular a produção de colágeno e uma reestruturação no padrão organizacional das fibras elásticas (SCARPIN, 2019).

Dentre as indicações do tratamento estético facial com eletrocautério, podem ser citadas: remoção de manchas; pigmentação em casos de leucodermias; curetagem em procedimentos estéticos para limpeza superficial da pele e tratamento de rugas visando o rejuvenescimento.

O equipamento pode possuir diferentes ponteiras, conforme apresenta a Figura 6. As ponteiras XP, PP e P são recomendadas para utilizar a técnica de pontilhamento e carbonização, que é adequada para tratar manchas e linhas de expressão. As ponteiras M e G também são recomendadas para utilizar a técnica de pontilhamento e carbonização, mas de forma mais moderada. Por fim, as ponteiras L e esférica são as menos agressivas, sendo recomendadas somente para promover estímulos de renovação celular (SCARPIN, 2019).

Figura 6: Tipos de ponteira que podem ser utilizadas no dispositivo eletrocautério.

As técnicas mais utilizadas na harmonização facial com o eletrocautério são de esfregaço e/ou estimulação com a ponteira esférica e a técnica de fulguração com a ponteira XP. Na técnica de esfregaço e/ou estimulação, como o próprio nome diz, é realizado um esfregaço na pele, de forma que ocorre uma esfoliação, removendo toda a camada córnea. Também ocorre o estímulo e aumento da permeabilidade da membrana celular, aumentando consideravelmente, assim, a absorção dos ativos presentes nos dermocosméticos. Na técnica de fulguração/pontilhamento, a corrente elétrica emitida pelo equipamento de eletrocautério com a ponteira XP, ao chegar próximo ao tecido (1 – 2 mm), irá causar um efeito térmico na pele. Este efeito provocará uma desidratação celular e uma lesão na pele, a qual irá induzir um processo inflamatório e cicatricial, gerando o aumento da produção de colágeno na pele, através da ativação dos fibrócitos e da neoformação de fibras de colágeno, que é a fase que promove um efeito de retração tecidual da pele (SCARPIN, 2019).

Barbosa (2018) obteve resultados positivos no tratamento de rugas frontais e nasogenianas através da associação do eletrocautério (técnica pontilhada) com ácido hialurônico. Coimbra (2010) também apresentou resultados positivos no tratamento de rugas da região orbital inferior. Mas neste último caso, o autor utilizou a técnica de eletrocoagulação, onde o eletrocautério não é colocado diretamente na pele, mas sim em uma agulha, causando queimaduras de pequenos orifícios, aproximadamente 1mm de profundidade e diâmetro variável entre 0,05 e 1mm.

4.2.2.2 Jato de plasma

Na física, o plasma refere-se ao quarto estado da matéria, que pode ser entendido como uma substância gasosa na qual a agitação molecular supera a energia de ligação que mantém os elétrons em órbita no átomo, dessa forma, tem-se um gás ionizado. Já na medicina e na biologia, o plasma é referente ao componente fluido não celular do sangue. O termo plasma referente ao quarto estado da matéria foi descrito pelo físico-químico norte-americano Irving Langmuir, em 1928, como a combinação diversa de constituintes de gases com elevado índice de ionização, semelhantes ao plasma sanguíneo (CROOKES, 1883).

O plasma pode existir em uma variedade de formas, sendo importante fazer uma distinção entre plasma térmico e não térmico. Em todos os plasmas suportados por um campo elétrico, elétrons recebem a energia externa mais rápido do que os íons muito mais pesados e têm a oportunidade de aquecer antes de seu ambiente. No plasma não térmico, o resfriamento de íons e moléculas sem carga é mais eficaz do que a transferência de energia dos elétrons e o gás permanece em baixa temperatura. Por esta razão, o plasma não térmico também é chamado de plasma fora de equilíbrio. Em um plasma térmico, por outro lado, fluxo de energia de elétrons para partículas pesadas equilibra o fluxo de energia das partículas pesadas para o ambiente somente quando a temperatura das partículas pesadas se torna quase igual à temperatura do elétron (HEINLIN et al., 2010).

Além de diferentes tipos de plasma, também existem diferentes formas de criá-lo e aplicá-lo. Neste contexto, podem ser feitas basicamente duas distinções: plasma direto e plasma indireto. Em plasmas diretos a própria pele serve como um eletrodo para que a corrente elétrica flua. Um exemplo comum é o dispositivo de descarga de barreira dielétrica (DBD). Esses dispositivos são assim denominados pois os eletrodos são separados por uma camada não condutora (barreira dielétrica).

Normalmente, a distância entre o dispositivo de plasma e o tecido é 1 mm. Já os plasmas indiretos são primeiramente produzidos entre dois eletrodos e então transportados para a área alvo por um fluxo de gás. A descarga pode ser mais forte neste caso, pois não há uma barreira entre o dispositivo e a pele. A maioria dos dispositivos deste tipo produz jatos de plasma com diâmetro estreito, de forma que o tratamento de superfícies maiores requer o uso de mais de um dispositivo ou um sistema multieletrodos. Além disso, a distância entre o dispositivo e a pele é variável, a depender do objetivo, pois neste caso a pele não é necessária como eletrodo para geração do plasma. No Brasil, são fabricados somente os dispositivos de plasma direto, por essa razão, eles serão foco das discussões (HEINLIN et al., 2010).

Algumas das primeiras aplicações baseou-se principalmente nos efeitos térmicos do plasma. Calor e altas temperaturas têm sido exploradas na medicina por muito tempo para fins de remoção de tecidos, esterilização e cauterização (cessação do sangramento). Tradicionalmente, usava-se o eletrocautério para esses fins, no entanto, o contato do tecido com a superfície metálica do eletrocautério, normalmente, resultava em adesão do tecido carbonizado ao metal, de forma que, na tentativa de retirar o equipamento, pode ocorrer sangramento devido à remoção do tecido carbonizado. Dessa forma, algumas das primeiras aplicações de plasma na medicina forneceu uma alternativa ao contato com o metal do eletrocautério (FRIDMAN et al., 2008).

Nos últimos anos, os efeitos não térmicos do plasma têm sido mais explorados. Isso é devido aos efeitos poderem ser ajustados a vários propósitos, como desinfecção e esterilização de materiais inertes e tecidos vitais, transfecção genética, tratamento para câncer, cicatrização de feridas, tratamento de úlceras, coagulação do sangue, dentre outros. Além disso, os efeitos não térmicos podem ser seletivos na obtenção de um resultado desejado para alguma matéria viva, evitando o tecido circundante (HEINLIN et al., 2010).

Existem vários tipos de gases que podem gerar plasma, como hélio, argônio, nitrogênio, oxigênio, neônio e o próprio ar atmosférico. No caso dos dispositivos que utilizam o plasma direto, só é possível utilizar o ar atmosférico para criar o plasma, já nos dispositivos que utilizam plasma indireto, é possível utilizar todos os gases. Naturalmente, diferentes espécies químicas podem surgir na formação do plasma, dependendo do gás que é usado, e, portanto, diferentes efeitos são produzidos, como cicatrização, regeneração da pele, remodelação do colágeno, estímulo do sistema imune, destruição de células cancerosas, dentre outros. Em geral, gases nobres, como argônio e hélio, são os maiores responsáveis pelos efeitos medicinais. Todavia, algumas espécies do plasma atmosférico, como o íon hidroxila (OH) e o ozônio (O3) podem atuar como bactericidas para reparação de úlceras, feridas, pós- operatório, desinfecção da pele, entre outras ações (GUERRA et al., 2018).

O uso do plasma na área da estética ainda é recente e há pouca informação na literatura. O termo Plasma Skin Regeneration (PSR) surgiu em 2005, quando o FDA autorizou o uso de plasma com nitrogênio para regeneração e rejuvenescimento da pele e tratamento de rugas. O efeito no rejuvenescimento facial com a técnica jato de plasma ocorre devido à produção de calor, que induz um “dano” térmico na superfície da pele, estimulando a produção de colágeno, modificação das fibras elásticas e reestruturação da derme. Alguns estudos sugerem que a ação do plasma sobre o tecido é capaz de estimular os fibroblastos e de aumentar a deposição de colágeno. Isso se dá porque a deposição de uma quantidade controlada de radicais livres, hidroxilas, é capaz de barrar totalmente as reações oxidativas teciduais através de uma reação química de redução, melhorando o estado geral da pele, A literatura também reporta outra aplicação do jato de plasma na estética facial, que é como facilitador de permeação de substâncias, dessa forma, ele pode ser utilizado em procedimentos faciais nos quais se deseja o efeito de ativos (HEINLIN et al., 2010).

Bogle et al. (2007) realizaram um estudo clínico de tratamento da pele da face empregando a técnica de jato de plasma com 8 voluntários. Os voluntários foram submetidos a 3 sessões de tratamento de rosto inteiro a cada 3 semanas, usando configurações de baixa energia (1,2 – 1,8 J) de um dispositivo PSR com gás nitrogênio. Amostras de biópsia de pele de espessura total foram obtidas de 6 pacientes antes do tratamento e 90 dias após o último tratamento. Os pacientes foram atendidos para acompanhamento 4 dias após cada tratamento e 30 e 90 dias após o terceiro tratamento. Três meses após os tratamentos, os pesquisadores encontraram uma redução de 37% nas rítides faciais e os participantes do estudo notaram uma melhora de 68% na aparência facial geral. A reepitelização foi completada em 4 dias. Também foi realizada uma avaliação histológica 3 meses após o tratamento, que revelou uma nova faixa de colágeno na junção dermoepidérmica com elastina menos densa na derme superior. A profundidade média do novo colágeno foi de 72,3 μm.

Foster et al. (2008) realizaram um estudo de revisão sobre os avanços no uso do plasma na regeneração da pele e demonstraram que existem diversos protocolos de tratamento com o uso do PSR, visto que diversas configurações de energia podem ser empregadas. Em geral, tratamentos com alta energia (3 – 4 J) são únicos e levam um maior tempo de recuperação, enquanto que tratamentos de baixa energia (1,2 – 1,8 J) podem ser múltiplos e possuem recuperação mais rápida. A Figura 7 apresenta resultados do uso do PSR com diferentes configurações de energia.

Figura 7: Processo de recuperação de um procedimento facial de jato de plasma utilizando o dispositivo PSR de (a) baixa e de (b) alta energia.

Apesar disso, Guerra et al. (2018) avaliaram diversas canetas de jato de plasma direto. Os autores verificaram que as canetas de jato de plasma estudadas produziram um plasma filamentar instável e geraram apenas três espécies químicas: isótopos de nitrogênio, hidroxila e ozônio. No entanto, os efeitos fisiológicos gerais das espécies químicas do plasma parecem ter sido prejudicados devido a instabilidade do plasma filamentar gerado.

Existem basicamente dois regimes de operação diferentes após a emergência de uma pluma luminosa de plasma: regime filamentar e difuso. No regime filamentar, após a fonte de energia ultrapassar a barreira dielétrica, há fortes descargas elétricas concentradas através de filamentos e/ou arcos. Esses filamentos e arcos elevam a temperatura da pele a ser tratada. Consequentemente, o efeito térmico do arco elétrico criado pode causar queimaduras em poucos segundos, antes mesmo da ação total do plasma. Por outro lado, no regime difuso, conhecido como “descarga luminescente”, a descarga é mais suave e a pluma homogênea e estável, sem a formação de arcos (SOUZA, 2013).

Dessa forma, de acordo com os autores, as canetas estudadas podem até ser vendidas como equipamento jato de plasma, pois ocorre a produção de plasma, contudo devido a sua instabilidade, é possível que os profissionais não se beneficiem de todos os efeitos fisiológicos das principais espécies químicas do plasma. Como resultado, o efeito de carbonização superficial da pele é a principal ação terapêutica dessas canetas. Além disso, os autores compararam o espectro de emissão de luz de um equipamento de eletrocautério com a finalidade de comparar os efeitos encontrados com os obtidos pelos equipamentos estudados de jatos de plasma. Verificou-se que a faixa de comprimento de onda do equipamento de eletrocautério é muito semelhante à da maioria das canetas de jato de plasma estudas, com valores entre 290 e 325 nanômetros. Assim, pode-se afirmar que os equipamentos de eletrocautério também produzem plasma filamentar.

5. RESULTADOS E DISCUSSÕES

No estudo realizado, buscou-se incialmente apresentar a fundamentação teórica sobre o envelhecimento cutâneo facial e sobre as principais técnicas disponíveis para prevenir e/ou minimizar os efeitos do processo natural de envelhecimento. Em seguida, foram tratadas com mais detalhes as técnicas de eletrocautério e jato de plasma, que são técnicas que têm sido bastante comentadas nos últimos anos, porém a literatura pertinente não reporta muitos trabalhos científicos no contexto de estética facial de ambas as técnicas, além disso, existem dúvidas sobre as reais diferenças entre os dois equipamentos. Dessa forma, diante dos trabalhos apresentados, será realizada uma discussão buscando compreender as técnicas, elencando suas vantagens e desvantagens.

Dentro do contexto de eletroterapia, as técnicas de jato de plasma e eletrocautério se destacam pelo efeito “blefaroplastia sem cortes”. Pode-se dizer que a “diminuição de pele” é um dos grandes diferenciais das técnicas. Já com respeito ao mecanismo de ação, considerando os dispositivos de eletrocautério e os dispositivos de jato de plasma produzidos no Brasil, ou seja, de plasma direto, pode- se afirmar que o mecanismo de ação de ambos é o mesmo, que é o estímulo da neocolagênese e reestruturação das fibras elásticas em resposta a uma inflamação causada pelo calor gerado pelo equipamento. De fato, esse argumento leva em consideração o trabalho de Guerra et al. (2018), no qual constatou-se que diversas canetas de jato de plasma direto emitem um plasma filamentar instável. Por essa razão, os benefícios que poderiam ser obtidos pelo uso do plasma em si acabam não sendo observados.

Em geral, o regime de plasma filamentoso causa desconforto ao paciente devido à iminência de queimação na pele. Já o plasma difuso tem a vantagem de manter a caneta estável e temperatura ambiente (plasma frio), sendo facilmente tolerada pelo paciente. Para obtenção do plasma difuso, deve haver uma barreira dielétrica extra (isolante), essa condição especial de operação é determinada pelo tipo de operação, gás, distância do eletrodo, tensão e frequência do pulso de tensão.

Além disso, poucos efeitos terapêuticos podem ser esperados do plasma gerado pelos equipamentos de plasma direto, uma vez que o ar atmosférico não é composto basicamente por uma mistura de 78% de nitrogênio e 21% de oxigênio. Portanto, sempre que essa mistura for usada como barreira dielétrica na formação do plasma, resultará na formação de plumas luminosas restritas apenas a espécies químicas derivadas de oxigênio e nitrogênio. Diante do exposto, torna-se evidente que as canetas comumente utilizadas de jato de plasma direto não têm grandes vantagens práticas perante os equipamentos tradicionais de eletrocautério.

6. CONCLUSÃO

Diante da crescente busca por prevenir e amenizar o envelhecimento cutâneo, diversos tipos de tratamento têm surgido. Em especial, observou-se uma maior procura por procedimentos não cirúrgicos, como procedimentos injetáveis (toxina botulínica e ácido hialurônico, por exemplo) e técnicas que tem como princípio causar uma microlesão e estimular neocolagênese, como a radiofrequência, microagulhamento e as técnicas tratadas com maiores detalhes neste trabalho, eletrocautério e jato de plasma.

Os procedimentos de rejuvenescimento e harmonização facial utilizando o eletrocautério e o jato de plasma se destacam devido às técnicas provocarem a reestruturação das fibras elásticas, dessa maneira ocorre uma diminuição da quantidade de pele. Teoricamente, na técnica de jato de plasma, ocorre a emissão de um plasma que pode oferecer efeitos fisiológicos benéficos, a depender do gás empregado. Contudo, na prática, especialmente no Brasil, são utilizados principalmente os dispositivos de plasma direto, os quais utilizam o ar atmosférico como barreira dielétrica e emitem um plasma instável e filamentar, que é muito semelhante ao do eletrocautério, de acordo com a literatura. Dessa forma, não é possível se beneficiar de todos os efeitos fisiológicos das principais espécies químicas do plasma e o efeito de carbonização superficial da pele acaba sendo o efeito terapêutico principal dessas canetas.

Portanto, acredita-se que os equipamentos de eletrocautério são capazes de gerar resultados equivalentes aos dispositivos de jato de plasma direto, comumente comercializados no Brasil, dessa forma, tem-se um maior custo-benefício.


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Publicado por:
Mestre em Medicina/Cirurgia de Cabeça e Pescoço, Especialista em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, Prótese Dentária, Prótese Bucomaxilofacial e em Harmonização Orofacial. Coordenador de cursos em Implantodontia e Harmonização Orofacial do Instituto Velasco, Diretor do Hospital da Face. Trabalha desde 2011 em harmonização facial.